A trilha de Michael Jackson’s This It tem de ser olhada de duas maneiras. As versões do filme são sensacionais, com novos arranjos, vivas. Já as canções remasterizadas do CD constituem um dos maiores erros da história da indústria fonográfica.
Para a frustração de qualquer fã de Jackson ou admirador de sua revolução musical, as novas roupagens que ouvimos e vemos no filme não estão no álbum. É mais ou menos assim: você vai ao cinema e ouve o Rei do Pop abrindo sua alma nos improvisos de I Just Can’t Stop Love You. Depois, chega em casa, põe o This is It no tocador de CD e escuta a mesma versão presente tanto no álbum Bad (1987) como em outras dezenas de coletâneas – com pequenas alterações.
Essa infeliz escolha de priorizar versões já conhecidas se repete em todas as faixas do CD 1. Por isso, abandono, a partir deste ponto, o álbum (que não passa de um desperdício auditivo), e me concentro exclusivamente no filme.
Coisas que só o ao vivo faz por você
Com a turnê Bad, iniciada em setembro de 1987, Michael Jackson passou a iniciar seus shows com Wanna Be Startin’ Somethin’, aquela canção que terminava com o apoteótico “Ma Ma Se Ma Ma Sa/Ma Ma Coo Sa” – canto retirado da camaronesa Soul Makossa. Em This is It, não é diferente. A folia é iniciada com a maravilhosa linha de baixo meio funk. Mesmo que Jackson não apresente o mesmo vigor para cantar e dançar, a canção é extremamente arrepiante e já coloca o espectador no clima do filme-show.
Depois de fazer uma apresentação econômica de Jam e uma coreografia tecnológica em They Don’t Care About Us, Jackson volta a colocar a alma em Human Nature. É impagável a discussão do cantor com o diretor musical para encontrar a nota certa. É uma das primeiras demonstrações de que Jackson, no palco, não deixa nada lhe fugir das mãos ou dos ouvidos. Impõe o que quer, mesmo que acrescente um “God bless you” nas frases.
Na sequência estão dois momentos emocionantes. Para Smooth Criminal, os tradicionais panos brancos que reforçavam a imagem de canção de mafiosos são substituídos por um novo videoclipe que insere Michael Jackson em Gilda ao lado de Rita Hayworth. Coisas positivas da tecnologia.
O segundo momento emocionante é The Way You Make me Feel. Antes de coreografá-la, Jackson decompõe a música e apresenta ao público a sua essência mais pura e passa a harmonia com o diretor musical. Como soaria bem aos ouvidos ter esse um minuto de discussão no álbum This is It em vez da versão que já estava em Bad.
Jackson 5 e o climax
Os dois blocos do filme-show são separados por um medley de canções da época do Jackson 5. I Want You Back, The Love You Save, I’ll Be There e Shake Your Body (Down to the Ground) exigem que ele volte a padrões vocais de quando era uma criança. Michael se poupa e chega até a pedir que os músicos o desculpem. “Por favor, me entendam, tenho de preservar minha voz”.
É hora do segundo bloco, iniciado por diversas improvisações, tropeços e versos repletos de alma. “Não, não me façam cantar”, diz Jackson para os dançarinos em I Just Can’t Stop Loving You. Mas ele não consegue conter a emoção e não foge das notas mais exigentes.
Já Thriller apresenta uma clara mudança de foco. A magistral coreografia está lá, mas é jogada para segundo plano e dá espaço a uma versão em 3D do videoclipe, com novos monstros e morto-vivos. Agrada aos olhos, mas o real prazer é olhar Michael no comando de diversos dançarinos.
Beat It, infelizmente, é extremamente inferior a outras apresentações, seja as da turnê Bad ou do lampejo de criatividade de 1997 na turnê HIStory. O saldo positivo é o solo da australiana Orianthi Panagaris. Ela também brilha em Black or White.
As três últimas canções de This is It estão em uma apropriada sequência para emocionar até o espectador mais cético. Pela primeira vez vemos Jackson apresentando a belíssima Earth Song sem playback e concentradíssimo para passar toda a emoção que sentiu ao compô-la.
Billie Jean, mesmo que econômica, nos lembra de tudo que já ouvimos, da luva branca, a jaqueta com lantejoulas, a coreografia, o moonwalk.
Man in the Mirror encerra da maneira correta: clímax e catarse. Do ponto de vista musical, This is It é maravilhoso, mesmo que, como filme, não passe de making of oportunista que emula a sensação de show.
O álbum
O fato do CD This Is It não trazer o áudio dos ensaios faz com que o álbum não mereça sequer uma linha de comentários, já que não passa de repetições de outras coletâneas desinteressantes.
O que salva está apenas no CD 2: versões demo de She’s Out of My Life, Wanna Be Startin’ Somethin’ e Beat It, além da leitura do poema Planet Earth - cujo texto acompanhou o encarte do álbum Dangerous.
Ah, o CD This is It também traz diversas páginas com fotos dos ensaios – algo que uma boa busca na internet substitui. Ou seja, a diversão e novidade fica por conta da ida ao cinema, porque o CD...
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Produção de This Is It
Se o dinheiro que seria perdido com a morte de Jackson já era dado como certo, produzir e lançar um filme com os ensaios ajuda a amenizar as perdas – financeiras.
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Produção de This is It
Afinal, lançar um filme para amenizar as perdas financeiras não é a melhor das justificativas, né?
CLÁSSICOS
Há uma eterna discussão entre qual é melhor, Off the Wall ou Thriller. Do meu lado, fico com o primeiro pelo fato de ele ter sido o ponto de virada, que já enunciava quase tudo que veríamos em Thriller. Seria, grosso modo, comparar Mulheres À Beira de um Ataque de Nervos com Volver, de Pedro Almodóvar.
LANÇAMENTOS
Quem quiser ouvir as mesmas canções lançadas em outros álbuns e coletâneas, vá em frente e siga com Michael Jackson's This is It. Daqui a pouco, você vai perceber que só está olhando as fotos...