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Já reparou que, ao ir ao cinema, cada vez mais você tem de escolher não somente o filme, mas também se quer vê-lo dublado ou legendado? Pois é, nós também. Se antes as versões dubladas dos filmes para o público adulto eram disponibilizadas exclusivamente em DVD ou na TV, cada vez mais esta versão vem ocupando as salas de cinema.
Ricardo Szperling, diretor de Programação da Rede Cinemark Brasil, acredita que o crescimento vem ocorrendo de quatro ou três anos para cá. Mas o mercado ainda tem poucos dados para saber precisar desde quando ou quantos ingressos vendidos são para cópias dubladas ou legendadas. “Embora transparentes, as informações de renda de cada filme ainda não são divididas entre o tipo de cópia”, explica Szperling, que tem como base as vendas de ingressos da maior rede de cinemas do Brasil. Na ocasião do lançamento da comédia
Sim Senhor, em 2009, por exemplo, 30% das cópias que chegaram no Cinemark eram dubladas; 34% dos ingressos vendidos pela rede eram para estas sessões. Outro filme para espectadores adultos lançado este ano,
Velozes e Furiosos 4, chegou aos cinemas pela primeira vez em versão dublada e 34% do público a preferiu. No caso de
Uma Noite no Museu 2, os números são mais impressionantes: 78% dos ingressos vendidos foram para esta versão.
O que mudou?
A diferença é que, antes, somente filmes infantis e animações chegavam às salas em cópias dubladas. Agora, o que vemos é o crescimento na disponibilidade de produções adultas nesta versão. No primeiro semestre de 2009, a distribuidora Imagem Filmes apostou na dublagem da comédia romântica
Falando Grego e, nos próximos meses, lançará também na versão dublada a comédia de horror
Matadores de Vampiras Lésbicas e o suspense
A Caixa. “Embora a crescente demanda por filmes dublados seja evidente, ainda não foi possível traçar o perfil exato de qual filme deve ser dublado”, explica Laércio Bognar, diretor comercial da distribuidora. “Estamos fazendo alguns testes e vendo no que dá. Portanto, o investimento em dublagem ainda é de alto risco. Exceção feita, obviamente, aos filmes família, cujo retorno e aprovação é 100%”, continua.
O risco é alto porque, além dos dados de mercado ainda não serem claros, o investimento na cópia dublada no lançamento nos cinemas encarece o processo. “O custo da cópia é o mesmo, cerca de R$ 3 mil; o que muda é que uma boa dublagem custa pelo menos R$ 60 mil, sem incluir a eventual contratação de artistas [os
talents ou dubladores famosos]”, explica Bognar.
Matadores de Vampiras Lésbicas, por exemplo, contará com a voz do apresentador e roqueiro João Gordo na versão brasileira. “Estamos super atentos a essa mudança de comportamento do consumidor brasileiro e, sempre que possível, procuramos disponibilizar nossos filmes nas duas versões”, revela Borgnar. “Ter alguém famoso sempre ajuda um filme; ele ganha mais exposição, mas não é somente isso que garante o sucesso”, acredita Szperling.
Harry Potter e o Enigma do Príncipe foi lançado este ano e, pela primeira vez, um longa da franquia do bruxinho chegou aos cinemas com uma presença maior de cópias dubladas: 429 contra 259 legendadas. Em 2008, de acordo com dados do
Filme B, das dez produções mais vistas nos cinemas brasileiros, três eram infantis e seis dos sete restantes foram lançados também na versão dublada. O mesmo segue na lista parcial de 2009: do
top 10, dois são animações, dois nacionais e cinco tiveram cópias dubladas.
Novos espectadores
Szperling percebe que, nos últimos anos, espectadores das classes B e C têm ido mais aos cinemas. “Esse público está acostumado a assistir a filmes dublados na TV e também no DVD, que sempre disponibiliza esta opção”, observa. “De 15 anos para cá, é mais fácil ver a versão dublada dos filmes em casa por conta do advento do DVD. O público freqüentador se comporta em função das ofertas”, acredita. O diretor de programação do Cinemark aponta que é possível saber, geograficamente, quais salas têm mais demanda de cópias nesta versão. Do circuito da rede, as salas nos shoppings Interlagos e Aricanduva, em São Paulo, são algumas onde a preferência está nos filmes dublados, além do complexo de Jacareí, cidade no interior de São Paulo, e Canoas, complexo nos arredores de Porto Alegre (RS).
“Com a opção fácil de cópias dubladas também em DVD, as pessoas ficam mais preguiçosas em trabalhar a leitura”, acredita Gustavo Ballarin, diretor de operações de marketing da Moviecom, principal rede de cinemas atuante no interior de São Paulo e em outras cidades do país. “É perceptível que o público prefire a versão dublada quando disponibilizamos ambos os tipos de cópias, por isso, optamos sempre pela dublada”, explica.
A Saga Crepúsculo: Lua Nova, por exemplo, chegará majoritariamente nesta versão no circuito Moviecom a partir de 20 de novembro [a distribuidora do longa vai disponibilizar quantidades equivalentes de cópias em ambas as versões]. “Mas também recebemos muitas reclamações de clientes que gostam da versão legendada”, pondera. “Agora, por exemplo, estamos negociando as cópias de
2012 e levamos em conta que é um filme comprido [tem 158 minutos], o espectador tem dificuldade em ficar lendo legendas por mais de duas horas, então, as versões dubladas serão mais aceitas”, explica. Bognar concorda: “O consumidor já percebeu isso e hoje muitos já não abrem mão do conforto de poder ficar livre das legendas. Sem a obrigação de ler, ele consegue acompanhar melhor tudo que se passa no filme”. No caso de
2012, que estreia em 13 de novembro, a demanda deve ser maior para estas versões. “Ainda mais nos dias de hoje, quando as produções estão repletas de efeitos especiais e de sequencias de ação eletrizantes. O ideal é manter os olhos grudados no cento da tela e não perder nada”, acredita o diretor comercial da Imagem Filmes.
Uma pesquisa feita pelo Datafolha, a pedido do Sindicato das Empresas Distribuidoras Cinematográficas do Rio de Janeiro, comprova: 56% dos espectadores consultados preferem ir ao cinema para assistir à versão dublada dos filmes, quando disponíveis; em DVD e em TV por assinatura, a preferência que domina é a mesma. Aliás, a preferência também é dos anunciantes, de acordo com o levantamento do Ibope Monitor de investimentos do mercado publicitário, mostrando que, entre os canais de TV por assinatura que mais faturaram no primeiro semestre de 2009, estão os que abriram mão das legendas. Na TV paga, o canal Fox lidera o
ranking de faturamento, com crescimento de 62% no período, em relação a 2008. A TNT, que sempre exibiu longas-metragens nessa versão, cresceu 4% em um ano e, dos canais Telecine, o único que faturou mais no primeiro semestre foi justamente o Pipoca. Ou seja, a tendência está também dentro da casa do espectador.
Dublagens melhores
Anna Paula Macedo, de 43 anos, é tradutora para dublagem e aposta nessa tendência. “A princípio, imagino que a demanda pela dublagem tem alguns motivos: a qualidade da dublagem no Brasil é uma das melhores do mundo”, acredita. Szperling também aponta este como um dos motivos para o crescimento dessa demanda: “Hoje, o nível da dublagem vem se aprimorando. Além disso, os cinemas oferecem áudio melhor”. Anna também lembra que o espectador também pode preferir a cópia dublada pela familiaridade com algumas vozes: “Você está acostumado a ouvir aquele ator ou atriz com certa voz”.
É fato também que nem todos os tipos de filmes ofertados atraem o público na versão dublada. O estudante Guilherme Marcon, que costuma ir quinzenalmente ao cinema, geralmente, prefere a versão legendada. “Não vejo somente filmes dublados porque acho que muitos são dublados de forma errada, comparando com a legenda”, mas admite que alguns gêneros acabam atraindo quando são oferecidos na versão dublada. “
A Era do Gelo 3 é um deles, mas tem também
Uma Noite no Museu 1 e 2,
Eu te Amo, Cara,
Espartalhões, entre outros. Animações e comédias me atraem ao cinema, quando dubladas, mas mesmo assim muitas as vejo legendadas”, explica o estudante. “Os outros tipos de filmes, geralmente, escolho legendado, por terem mais detalhes importantes, coisas que prefiro pegar na melhor tradução possível.”
Como espectador, Szperling também têm preferência pelas versões legendadas quando vai ao cinema com sua esposa; acompanhado dos filhos, só filmes dublados e admite: “Cada vez me habituo mais a ver filmes dublados”. Parece que esta é a tendência não somente na casa dos Szperling.