17/10/2009 10h10

Trechos encontrados de clássico de Fritz Lang alteram narrativa, afirma restauradora

Heitor Augusto

Foto: Divulgação



















Em 1927, o austríaco Fritz Lang lançaria um marco tanto no expressionismo como na ficção científica, geralmente citado como precursor de Blade Runner e Star Wars. Metrópolis foi uma extravagância cara para a produtora alemã UFA (Universum Film Aktiengesellschaft), porém frutífera para a história do cinema.

O projeto que estava na cabeça de Lang – a história de uma cidade fantástica do século 21 dividida entre operários explorados e um manda-chuva sem escrúpulos – durou pouco. Precisamente, quatro meses depois da estreia, que ocorreu em 20 de janeiro de 1927, a versão de 153 minutos saiu de circulação, foi reeditada pela UFA e se tornou um filme com cerca de 116 minutos e diversos trechos simplesmente incompreensíveis.

Pois essa lacuna será praticamente preenchida com os 30 minutos restantes encontrados no Museu de Cinema Pablo C. Ducros, em Buenos Aires. “A estrutura do filme muda completamente, especialmente o entendimento dos três personagens coadjuvantes: Josaphat [o empregado demitido por não alertar sobre a rebelião], Georgy [que tem um colapso causado pelo trabalho excessivo] e “der Schmale” [o espião], que foram renegados aos extras do DVD”, avalia Anke Wilkening, chefe da equipe de restauração, ao Cineclick.

Wilkening também aponta outras mudanças. “Duas cenas básicas explorando a relação de Freder [filho do dono de Metrópolis] com Josaphat e Georgy foram eliminadas pela Paramount no lançamento para o mercado norte-americano e pela UFA na Alemanha”.

A inclusão das cenas perdidas vai partir da versão de 2001, a mais completa até então. “Comparando a versão de oito anos atrás com os rolos encontrados na Argentina surgem novas questões sobre a montagem. Os 30 minutos, ao lado da trilha sonora, são as nossas principais ferramentas para reedição de Metrópolis”. Porém, a restauradora da Fundação F. W. Murnau, que detém os direitos sobre o filme, afirma que não se trata apenas preencher buracos.

“Os trechos encontrados nos levam a dois impasses. Primeiro, apesar de que esta será a maior versão disponível, ainda faltam pequenos trechos; segundo, para pedaços ou cenas perdidas na versão de 2001, os rolos descobertos na Argentina sugerem uma montagem diferente”.

Para o crítico Sérgio Alpendre, Fritz Lang trouxe complexidade ao roteiro e à estrutura de explorados e exploradores, chave do filme. “Mesmo durante as filmagens, Lang não gostava das idéias simplistas do roteiro de Thea von Harbou, sobre o capitalismo e o operariado, principalmente no desfecho conciliador. Sua visão era muito mais pessimista, como podemos notar em suas diversas e fundamentais obras futuras”.

Anke Wilkening diz que o processo de restauração deve ser finalizado até o início de 2010. “Acabamos de começar a restauração digital. Temos de melhorar a qualidade das imagens, destruídas com o tempo, sem usar muitos artefatos que alterem o clima do filme. O problema é que o negativo original da cópia argentina não existe mais e o negativo de 16mm está muito riscado”.

O filme vai chegar aos cinemas? A restauradora não é tão incisiva. “Vamos tornar disponível a versão completa para qualquer cinema que requisite. Nosso distribuidor Transit Film, baseado em Munique (Alemanha), é responsável pelos lançamentos na telona”. Alguém se candidata?
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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
toureiro - 17/10/2009 11:05
Finalmente!!! Fritz Lang merece que seu filme seja visto da maneira correta
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