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Há um costume oficializado que é bem nocivo no Festival do Rio. É a prática das carteiradas. Consiste na necessidade de economia de ingressos por parte dos compradores de passaporte e jornalistas credenciados, que se vêem obrigado a entrar somente com a credencial (ou o passaporte), sem retirar ingresso, nas sessões realizadas nos cinemas do grupo Estação.
A princípio, nada há de errado com o exercício dessa prática. Normal que tenham que esperar a entrada dos espectadores que compraram ou retiraram ingressos, e, por isso, têm direito à escolha de um bom lugar.
O problema acontece por causa de uma certa má vontade dos responsáveis pela entrada nas salas, e da orientação dada pelos gerentes desses espaços. A ordem é evitar a fraude a qualquer custo. Para isso, recorre-se à velha mania de tratar todos os espectadores, sem exceção, como criminosos em potencial. Identidades são pedidas, conferidas, às vezes demoradamente, numa suspensão completa da civilidade. Daqui a pouco vão exigir certidão de nascimento, título de eleitor, cartão de crédito válido, etc. Mais grave: na maior parte das vezes a entrada dos sem-ingresso só é permitida com a sessão já começada, não raro com o próprio filme em andamento.
Ora, se o propósito do festival é proporcionar um banquete de filmes, por que dificultar a participação nesse banquete? Por que não aumentar o número de ingressos a que cada permanente/credencial tem direito, para evitar ao máximo essa prática constrangedora de ter que aguardar a sessão começar para entrar na sala?
Esse é o ponto mais baixo de um festival que compete ano a ano com a Mostra Internacional de Cinema de São Paulo pela supremacia da desorganização e da falta de respeito com o consumidor. Se continuar essa escalada do absurdo nos dois maiores festivais internacionais do país, o exercício da cinefilia vai se tornar definitivamente algo proibitivo para quem realmente ama o cinema, para além de desconfianças e descréditos dos organizadores. As projeções digitais já contribuem, e muito, para isso. Imaginem a carteirada para um filme que terá exibição tosca em DVcam. É o apocalipse da experiência com a tela grande. Mais um episódio para colaborar com o ocaso da magia como a conhecemos. Triste.