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Reinventar o mundo, ao menos o que se passa dentro de um filme, é uma forma de mexer com o panorama cinematográfico por meio da narrativa. Alain Guiraudie conseguiu, com
O Rei da Fuga, mostrar um mundo onde a ordem é ter relações sexuais sempre que der vontade, frequentemente com pessoas do mesmo sexo, sem que haja um movimento de escândalo que venha de dentro do filme, das pessoas que fazem a história andar - existem as inevitáveis risadas nervosas da platéia, mas não podemos pagar psicanalistas para todos se resolverem com seus problemas sexuais.
O escândalo se dá, mais tarde, quando um pai fica enciumado por ter um suposto (o filme não explica, apenas sugere) antigo amante (um homem de meia idade) dando em cima de sua filha adolescente e move uma verdadeira perseguição ao casal insólito.
Não existem respostas fáceis. A única lógica que move os personagens é a da carne, da pulsão pelo prazer, pelo contato da pele, pela busca do gozo alucinante. Gordos, senhores, proprietários rurais, delegados de polícia, pacatos comerciantes, playboys com botas de barro, e, claro, uma ninfeta fogosa e desinibida; ninguém escapa da fúria do sexo.
Não há uma grande discussão permeando o filme, na surdina, que não seja essa: por que tolher o ser humano de uma vida hedonista, guiada para e pelo prazer carnal? Não importa se esse prazer seja entre homens de idades muito diferentes, entre dois gorduchos, ou ainda entre um gorducho e uma adolescente. O que importa é a vazão dada a esses impulsos sexuais, como eles determinam vontades, pressas, vagarosidades, ações atrapalhadas e até mesmo dúvida e receio.
Não é um filme que se desenrola de maneira normal. Seus tempos e enquadramentos são bem inusuais, o que deve causar estranheza ainda maior nessa platéia tão mal servida de diferenças que não sejam formatadas. Tem ainda uma trilha que sempre surpreende por seus tons grandiosos e bufos. Mas não é um ET a ponto de afastar quem se dispuser a enfrentar sua estranheza. Esses afortunados que enfrentarem o diferente terão um cinema que ainda não foi devidamente codificado pelos festivais internacionais, ainda que não esteja tão longe e difícil de o ser.
A última exibição de
O Rei da Fuga será nesta quarta-feira (30/9), às 16h30, no Estação Barra Point 2.