Que Festival do Rio pudemos ver neste ano? Um festival que reunisse os filmes mais esperados da nova safra do cinema brasileiro? Que nos mostrasse que o cinema contemporâneo vai bem, que gênios continuam surgindo a cada ano? Ou simplesmente um festival que causasse certo desânimo no cinéfilo inveterado, aquele que se programa para sair de casa e passar o dia dentro de uma sala escura e só sair tarde da noite, depois de refeições mal feitas e uma certa dor nos olhos?
Infelizmente, o que se pôde ver nestes dias corridos está muito mais para a última alternativa, enquanto a segunda, a que especulava sobre novos gênios surgindo, é francamente absurda.
O melhor filme visto no Rio, e, é possível dizer, neste ano no Brasil, é Les Amours d'Astrée et de Céladon, de um diretor que já está no métier há mais de 50 anos (inicialmente como crítico, depois como cineasta): Eric Rohmer (A Inglesa e o Duque). A má notícia é que a obra-prima não estava na lista preliminar divulgada pela mostra, nem foi comprada por algum distribuidor.
Outro francês foi responsável por outro destaque do festival. Trata-se de A Fronteira da Alvorada, de Philippe Garrel (Amantes Constantes), outro diretor que já tem anos de estrada (começou na década de 60). A trágica história de amor filmada em um austero preto e branco não agradou a todos, e chegou a provocar risadas fora de hora da platéia mal acostumada que anda freqüentando os festivais. Mas confirma que Garrel é dos diretores mais importantes em atividade.
Em contrapartida, os orientais, sempre uma pedida interessante na hora de escolher o que ver, decepcionaram. De Hou Hsiao-hsien (Café Lumière), diretor que ainda nos deve um filme à altura de seu culto, passou A Viagem do Balão Vermelho, um belíssimo trabalho intimista filmado em Paris. Longe de ser fenomenal, é bem agradável de se ver, e tem uma das melhores atuações da carreira de Juliette Binoche (Caché).
O outro oriental endeusado, Hong Sang-soo (que no festival do ano passado trouxe o muito superior Mulher na Praia), foi representado por Noite e Dia, que, a exemplo de Hou Hsiao-hsien, filmou em Paris.
Do Japão, uma grande decepção foi Sad Vacation, de um diretor sempre presente no Festival do Rio, Shinji Aoyama (de Eureka e Meu Deus, Meu Deus, Por Que Me Abandonastes?). O filme teve seus entusiastas, mas nem eles conseguiram disfarçar certa decepção.
A melhor coisa surgida do leste foi Sonata de Tóquio, de Kiyoshi Kurosawa (Vítima de uma Alucinação), que não só redime toda a seleção em homenagem aos 100 anos da imigração japonesa - muito aquém do esperado - como eleva o nível de toda a seleção oriental exibida no festival. A meia hora final basta para se colocar Sonata de Tóquio entre os grandes destaques do festival.
Os outros filmaços exibidos foram Vicky Cristina Barcelona, que confirma a grande forma de Woody Allen (O Sonho de Cassandra); Aquele Querido Mês de Agosto, um estranho e delicioso longa-metragem (longo mesmo, são duas horas e meia de duração) de Miguel Gomes, jovem diretor oriundo de Portugal; e Leonera, novo trabalho de Pablo Trapero (Família Rodante) que continua a crescer muito tempo depois da projeção.
Nas retrospectivas, algo em que o Festival do Rio sempre caprichou, não ficamos no terreno da mais profunda decepção, como no ano passado, quando a maior parte dos filmes chineses clássicos e dos westerns de John Wayne (Rastros de Ódio) vieram em DVD. As seleções dos irmãos Taviani, que contou com clássicos como Pai Patrão, Um Grito de Revolta, Noites de São Lourenço e Bom Dia Babilônia; e de Derek Jarman, que exibiu Caravaggio, Wittgenstein e Eduardo II, entre outros, foram bem fartas, e o que é mais importante, em película, como todo festival de porte deve trazer. Uma pena apenas a má vontade dos cinéfilos, que só enchiam as salas pequenas de Botafogo, o bairro, e raramente se deslocavam para o belíssimo Palácio para ver essas pérolas do cinema.
As decepções foram muitas, e vale a pena alertar para mais algumas delas. Lucrecia Martel (Menina Santa) pareceu, com A Mulher sem Cabeça, transpor para a tela larga do scope (formato em que ela se joga pela primeira vez) sua maneira inusitada de enquadrar, o que resultou em um filme frio e incômodo, ainda que com momentos de força inegável.
Também da Argentina vêm dois dos piores filmes selecionados. Talvez nem se possa pensar em decepção, porque Lisandro Alonso (Los Muertos) sempre foi limitado, mas seu recente Liverpool é insuportável. Armadilha vazia, mas quase letal, para espectadores que ainda não perceberam os clichês entregues, ano a ano, pelos festivais internacionais. E Pablo Fendrik, que deu mostras de que poderia vir a ser um bom cineasta com seu filme anterior, O Assaltante, nos trouxe o intragável O Sangue Brota, que mostra que não são só os cineastas endinheirados do Brasil as vítimas de um ranço sociológico barato. A câmera tremida o tempo todo irrita muito, e destrói até possíveis bons momentos, como o que os dois adolescentes ficam vendo na rua com quem eles poderiam fazer sexo oral. Para encerrar o quadro de decepções argentinas, Albertina Carri decaiu bastante em relação aos seus trabalhos anteriores, Los Rubios e Geminis. A Raiva tem momentos constrangedores, que buscam o choque de uma maneira desajeitada.
E os brasileiros? Numa seleção mais fraca que em qualquer outro ano, tanto em opções como em interesse, sobressaiu-se a nova provocação de Júlio Bressane (Cleópatra), A Erva do Rato, e a poética homenagem a Waly Salomão, feita por Carlos Nader em Pan-cinema Permanente. Como não foi possível ver Se Nada Mais Der Certo, o novo filme do sempre interessante José Eduardo Belmonte (A Concepção), a impressão é de que a Première Brasil deste ano foi um desastre.
O ponto mais negativo, no entanto, foi a exibição de Um Conto de Natal, de Arnaud Desplechin (Reis e Rainha) em DVCam, com uma qualidade que lembrava um VHS mofado. Um verdadeiro desrespeito com o público pagante, que deveria ter sido avisado do imprevisto.
Provavelmente foi o pior Festival do Rio do século 21, mas talvez a responsabilidade por isso seja também da safra atual, que não é muito animadora. Para a 32ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo, entretanto, estão confirmados alguns filmes que ficaram ausentes da seleção do Rio: Le Premier Venu, de Jacques Doillon (Ponette); L'Heure d'Été, de Olivier Assayas (Traição em Hong Kong); e Entre Les Murs, de Laurent Cantet (Em Direção ao Sul). Além da reabilitação pela ausência de A Floresta dos Lamentos, de Naomi Kawase (Shara), cineasta japonesa que pela primeira vez vai passar na Mostra.
Ou seja, ao que tudo indica, pelo segundo ano consecutivo a Mostra Internacional de São Paulo vai fazer sombra ao Festival do Rio, se é que essa competição estéril ainda faz sentido nos dias de hoje.
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