17/06/2009 16h06

Personalidade dúbia motivou Vincent Cassel a interpretar mito francês

Heitor Augusto

Vincent Cassel
Foto: Heitor Augusto

A paradoxal personalidade de Jacques Mesrine, gângster francês assassinado em 1979, foi a principal motivação do ator francês Vincent Cassel (À Deriva) para aceitar o desafio de interpretá-lo no filme Inimigo Público Nº 1 - Instinto de Morte.

“Acho que o interessante do papel é que o público não sabe o que pensar do personagem, sentimento que eu senti reforçado após assistir ao filme. Ele é uma pessoa simpática e violenta ao mesmo tempo; divertido, mas racista; romântico e, por outro lado, misógino”, afirmou ao Cineclick.

O filme foi concebido como um projeto em duas partes (L'instinct de Mort e L'ennemi Public nº 1) que alcança desde o período no exército durante a Guerra da Argélia (1954-1962) até a emboscada armada pela Brigada de Repressão ao Banditismo para executá-lo em Clignancourt, região de Paris. As imagens de seu corpo perfurado foram exibidas ostensivamente em telejornais.

“Eu vi essas imagens”, relembra o ator, prestes a completar 13 anos na ocasião do assassinato. Inicialmente, apenas a primeira parte do filme vai estrear em 3 de julho no Brasil. Para os espectadores daqui, faltará uma parte fundamental da história de Jacques: quando ele deixa de ser apenas um ousado assaltante para desafiar o estado e fazer demonstrações políticas.

Mudança que causa dubiedade na imagem criada em torno de Mesrine, misto de vilão e herói. “Quando fui convidado para participar, não concordei com a visão de que ele fosse apenas um herói. Quando Jean-Fraçois [Richet] entrou para dirigir, ele imprimiu algo que gostei, de mostrar o paradoxal do personagem. Não quero filmes que digam ao espectador o que pensar”.

Para compor o personagem, Cassel conversou com as filhas, leu a autobiografia L'Instinct de Mort, observou fotografias. “Mas também conversei com quem trabalhou com Mesrine na época. Como não há imagens dele em vídeo, em ação, isso me deu mais liberdade para criar”, avalia o ator, que também afirma pessoas próximas ao gângster consideraram fiel a sua recriação cinematográfica.

Por que a execução em via pública foi a solução adotada pelo Ministério do Interior da França para impedir a próxima ação de Mesrine? “Para servir de exemplo usado pelo governo francês mostrar o que uma pessoa não pode fazer ou falar. Ele é personagem que mostra um lado ruim do sistema, o repressor”, avalia Cassel, que condena o ato de matar (“isso é ultrapassar a linha”), não aceita a tortura seja de direita ou esquerda, mas compreende porque ele é herói para uma fatia da população francesa.

Antes de chegar aos cinemas, Inimigo Público Nº 1 – Instinto de Morte terá sua primeira exibição na noite desta quarta-feira (17/06) em São Paulo. O filme, junto a outros seis, integra a programação do Panorama do Cinema Francês. Razão pela qual Cassel voltou, uma vez mais, ao Brasil.

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