07/07/2009 11h59

Na FLIP, cineastas discutem pós-modernismo e cinema comercial

Rafael Pasqua

Foto: Divulgação

A mesa Cinema Fora de Ordem, que aconteceu num braço paralelo da 7ª FLIP, a Festa Literária Internacional de Paraty, trouxe três brasileiros e um afegão exilado na França para discutir os formatos e regras prontas para o cinema.

Quem iniciou a apresentação foi Newton Cannito, cineasta que esquentou a discussão sobre estética do documentário ao lançar Jesus no Mundo Maravilha. Na FLIP, trouxe questionamentos sobre os limites construídos em torno do que viria a ser cinema comercial ou até cinema de vanguarda. Cannito pontua que todo cinema é comercial – alguns mais, outros menos –, assim como criticou o uso da palavra vanguarda como definição, brincando com a citação “tudo muda, menos a vanguarda”. Para ele, o importante é planejar, testar e seguir sua obra, sem falsas liberdades.

Cannito exemplificou que a fórmula de fazer cinema e contar uma história muda de acordo com a sociedade. Enquanto nos anos 1970 as histórias eram apresentadas em blocos com o protagonista esmiuçado até o primeiro terço do filme, hoje há histórias que mantém até o final a obscuridade em torno do personagem.

Mudança que estaria relacionada com a sociedade contemporânea, na qual o fluxo maior de pessoas gera encontros esparsos e instáveis que acabam por construir uma imagem fragmentada dos então personagens. A arte estaria então imitando a vida. No campo acadêmico, o conceito de liquidez da sociedade – o tempo importa mais que o espaço ocupado – é diagnosticado pelo sociólogo e filósofo polonês Zigmound Bauman.

Ocidentais x orientais

Atiq Rahimi (Terra e Cinzas), escritor e cineasta afegão, ganhador do Prêmio Goncourt 2008 pelo romance Synghé Sabour: Pedra de Paciência, foi apresentado ao público como detentor de uma história extraordinária por ter cruzado o deserto do Afeganistão em direção à França, onde está exilado há anos.

Sorria facilmente. Atiq já havia participado em outra mesa na FLIP, A Névoa da Guerra, ao lado do escritor Bernardo Carvalho. Quando começou a dividir suas ideiais sobre o tema de “regras de cinema”, Rahimi apresentou os resultados de sua última pesquisa acadêmica, onde buscou catalogar e entender o final de trezentos filmes. O resultado? A regra mais clara foi sobre a conclusão do filme, o seu final. Nas produções ocidentais a ideia final é apresentada no fim, enquanto nos orientais o final permeia o filme.

Aleksei Abib, co-roteirista de A Via Láctea, de Lina Chamie, contou uma experiência ocorrida durante a produção para justamente exemplificar que não há regra para o cinema. Após darem o último tratamento ao roteiro, consultaram e pediram comentários a algumas pessoas. Uma opinião vinda do México recomendava filmar dois finais.

Aleksei e Chamie filmaram e não levaram a sério a opinião. Assim, tiveram grande dificuldade em fechar a trama com o final previsto no roteiro. O remédio foi refilmar algumas cenas para incluir as sugestões da mexicana. O processo, e as filmagens, foram muito maiores que as pré-concepções do roteiro.

Para finalizar, Cannito adverte que se um cineasta terminar um filme e não souber qual regra foi usada, significa que ele esteve perdido e que provavelmente o filme também estará.

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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Felipe Dall'Anese - 07/07/2009 16:12
Parabéns pelo texto.
Queria estar ali na roda pra discordar de todo mundo.
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