28/10/2009 16h10

MOSTRA 2009: Diretor de Metropia quer causar reflexão

Angélica Bito

Tarik Saleh
Foto: Divulgação
O cineasta sueco Tarik Saleh já dirigiu dois documentários em longa-metragem, Gitmo (2005) e Sacrificio: Who Betrayed Che Guevara (2001), ambos exibidos no festival É Tudo Verdade. As ocasiões trouxeram o cineasta ao Brasil, que ainda lembra: foi aqui que recebeu seu primeiro prêmio de sua carreira, em 2001. O primeiro, mas não o único: a animação Metropia, seu novo trabalho, foi exibida pela primeira vez no prestigiado Festival de Veneza, abriu a Semana da Crítica e ganhou o Future Film Festival Digital Award. É este trabalho que traz Saleh novamente ao Brasil, como convidado da 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo.

Em conversa com o Cineclick, o cineasta conta que Metropia é consequência de uma série de animações em curta-metragem produzidas por ele e sua equipe, “todas com tramas envolvendo conspirações”, explica. “Metropia não é sobre o futuro, é sobre o agora. Não é o governo que nos vigia, somos nós mesmos, somos nossos próprios inimigos”, teoriza o cineasta, citando 1984, livro de George Orwell. “Quando Orwell imaginaria que seu termo Big Brother viraria um sucesso na TV?”

Conspiração e o controle dos seres humanos numa Europa unificada por um metrô, que liga os países por meio dos caminhos subterrâneos, são o tema de Metropia. Num futuro não muito distante, Roger (voz de Vincent Gallo) é um trabalhador comum que acaba se envolvendo com uma trama conspiratória envolvendo uma grande corporação, que controla as mentes dos cidadãos. “O livre arbítrio é importante, mas cada escolha que fazemos cria ansiedade, um sentimento que não somos bons o bastante”, teoriza o diretor. “O filme é sobre olhar no espelho e descobrir seu próprio inimigo.”

Ao mesmo tempo, Saleh explica que Metropia também é uma história de amor, por meio do protagonista e sua namorada, Anna. “”Hoje é muito difícil fazer um relacionamento funcionar porque todos lhe dizem que você pode ter um carro melhor, uma roupa melhor e uma namorada melhor também”.

Saleh conta que, em sua animação, a ideia é expressar os sentimentos dos personagens por meio do olhar. Por isso, a área dos olhos dos personagens foram trabalhadas tendo mais de 30 camadas na realização da animação. “A maioria das animações traz personagens com reações caricaturais, por isso trabalha-se muito com animais; eu queria que as reações ficassem concentradas nos olhos”, conta. “Amo os filmes da Pixar, mas existem muitos outros que parecem os mesmos, queria fazer algo diferente, para fazer as pessoas pensarem.”

Depois de estrear seu filme no Festival de Veneza, Saleh não parou mais de viajar: percorreu o mundo exibindo Metropia, em mais 20 festivais. “As pessoas reconhecem que é um filme diferente”, admite. Mas o diretor confessa que estava particularmente ansioso para trazer o longa para cá, uma vez que ele já trouxe seus dois filmes anteriores . “A reação foi muito boa, as pessoas queriam saber se o filme é como a Suécia, fizeram perguntas mais específicas, o que é fantástico!”, conta Saleh, que participou de debates após as exibições da animação na Mostra. “A cena artística brasileira é inspiradora, as pessoas são intelectuais, muitas vezes tenho a impressão de serem mais do que em Estocolmo, mas também porque eu conversei com estudantes de cinema”, admite o cineasta, que reconhece também o valor dos documentários brasileiros, como Ônibus 174, pelo qual demonstra profunda admiração.

Descendente de egípcios, Saleh conta que seu próximo projeto cinematográfico será uma ficção em live action, rodada no Egito.

Metropia ainda será exibido na 33ª Mostra Internacional de Cinema em São Paulo na sexta-feira (30/10), às 16h, no Cine Bombril, e no sábado (31/10), às 22h, no Cinemark Shopping Eldorado.
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