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Por Sérgio Alpendre
Chegou a hora de recolher as programações e esperar pelo próximo ano. O que foi visto pôde ser comentado, contestado e admirado. O que não foi visto vai ter de esperar uma outra oportunidade (DVD, circuito, ciclos em cinematecas, etc...). Encerra-se mais um banquete de muitos sabores, com risco de deleite total e de certa indigestão. Mas quem ama cinema geralmente participa da festa, nem que seja por um breve momento, uma corrida à mesa central para um canapé.
A 32ª edição da tradicional Mostra Internacional de Cinema em São Paulo foi estranha, para dizer o mínimo. Estamos vivendo um período de transição, quando a palavra "digital" é considerada mágica antes mesmo de ter seu significado compreendido. Por isso, acompanhamos cerca de metade das exibições no formato digital, o que quer dizer desde a já conhecida
Rain, com seu padrão de qualidade que varia do risível ao aceitável, às vergonhosas cópias em DVCams, que se assemelham a fitas de VHS com o
tracking desregulado.
Tudo bem que alguns filmes só seriam exibidos dessa maneira, mas nesse caso cabe a questão: é um nobre motivo? E algumas questões derivadas: o evento não era melhor quando exibia menos filmes? A produção mundial não era melhor selecionada? Um evento desse porte tem algo a ganhar com o gigantismo? Perguntas que talvez não sejam respondidas satisfatoriamente, nem pela direção da Mostra, nem pela imprensa especializada, muito menos pelos cinéfilos que se habituaram a correr de um cinema para outro.
Se é demasiado cedo para lamentar a opção escancarada pelo digital em nome da exibição a qualquer custo, da necessidade de estarmos - nós, pobres cinéfilos brasileiros - antenados com o que se produz na atualidade, também seria leviano fazer vistas grossas aos percalços que essa opção acarreta. E se o momento é de transição, cabe pensarmos se o caminho é esse mesmo ou se a corrida rumo ao digital está sendo realizada de maneira ansiosa.
Discussões complicadas à parte, dá para destacar os filmes, a razão de ser eterna da Mostra. E nesse terreno o banquete, como imaginávamos, foi bem farto. Pudemos ver desde o novo e excelente trabalho de Woody Allen (
O Sonho de Cassandra),
Vicky Cristina Barcelona, com um dos personagens mais fortes dos últimos anos sendo interpretado por um inspirado Javier Bardem (
Onde os Fracos Não Têm Vez), até o magnífico estudo da questão social e das injustiças do capitalismo no essencial
Sonata de Tóquio, de Kiyoshi Kurosawa (
Vítima de uma Alucinação), que não tem parentesco algum com o mestre Akira Kurosawa (
Os Sete Samurais).
No cinema de gênero, fomos brindados com o simpático
Appalloosa - Uma Cidade Sem Lei, de Ed Harris (que se redimiu de ter feito o insosso
Pollock), mas também com uma pérola do cinema de horror recente,
Deixa Ela Entrar (como diz a legenda em português impressa na cópia), do diretor sueco Tomas Alfredson, um romance de terror como há muito não se via.
O cinema de autor vai bem, sim senhor, ainda que um tanto acomodado. Se pudermos ver diretores tarimbados no melhor de sua forma -
Horas de Verão, de Olivier Assayas (
Clean),
A Fronteira da Alvorada, de Philippe Garrel (
Amantes Constantes) e
A Vida Moderna, de Raymond Depardon (
La Captive du Désert) -, também testemunhamos cineastas com certo potencial errando a mão, caso de Albert Serra, com
O Canto dos Pássaros, e de Lisandro Alonso, com
Liverpool, e diretores com uma obra forte como Jacques Doillon (
Ponette) caindo no atalho fácil do desprezo à composição de personagens, com
O Primeiro a Chegar.
Tivemos obras notáveis de diretores já consagrados em festivais, como Jia Zhang-ke (
Em Busca da Vida) e seu belíssimo
24 City, Naomi Kawase e o maravilhoso
A Floresta dos Lamentos e Pablo Trapero (
Família Rodante) com seu
Leonera. Descobrimos um grande autor: Miguel Gomes, diretor do estupendo e desafiador, embora fácil de se ver,
Aquele Querido Mês de Agosto. E um cineasta uruguaio a se seguir: Federico Vieroj, que nos brindou com o agradável
Acne.
Mas talvez a melhor pedida nesta 32ª edição foi acompanhar um punhado de filmes que comprovam o ecletismo de um cineasta de marca autoral bem definida como Kihachi Okamoto. Quem achava que tal paradoxo (ecletismo e idiossincrasia) não era possível deve ter se impressionado com obras como
A Espada da Maldição,
Forte Sepultura e
Tudo Sobre o Casamento. Além, claro, da confirmação inevitável de que Bergman já era grande antes de
Morangos Silvestres. A Mostra exibiu o primoroso
Prisão para provar toda sua inventividade já no final da década de 40. Filmes maduros e geniais como
Vergonha,
A Paixão de Ana e
Fanny e Alexander também enriqueceram a programação.
Não podemos esquecer da sessão inesquecível de
O Poderoso Chefão, primeiro de três filmes essenciais que Francis Ford Coppola (
O Homem Que Fazia Chover) fez sobre a saga do filho de um mafioso, com uma interpretação monumental de Al Pacino (
As Duas Faces da Lei). E da exibição completa em 35mm de outro monumento:
Berlim Alexanderplatz, de Rainer Werner Fassbinder (
Lili Marlene). São momentos assim que fazem com que cada edição tenha suas particularidades, e ajudam a relevar um pouco as pisadas na bola típicas deste momento de transição.
Trocando em miúdos O pior:
- As projeções em DVCam, como o ingresso custando absurdos R$ 18 de sexta-feira a domingo.
- Os atrasos pelos mais variados motivos: desorganização, legendagem, sinal digital, etc.
- A falta de humor de muitos freqüentadores, pouco habituados aos deslizes inevitáveis de um evento como a Mostra, e a falta de educação de muitos espectadores.
- A programação mal feita, que ousou exibir uma cópia celebrada em 35mm de
Berlim Alexanderplatz na tela minúscula do Cine Bombril 2, ou o elogiado
Melancholia na sala 5 do Espaço Unibanco Augusta, com tela menor que a de muitos
Home Theaters.
- Os preços dos ingressos e dos pacotes especiais.
O melhor:
- As retrospectivas de Kihachi Okamoto e Ingmar Bergman, bem como a exibição especial de
O Poderoso Chefão.
- A forte presença de filmes brasileiros que dificilmente chegarão ao circuito comercial.
- A projeção do Cinesesc, que permitiu o brilho intenso do filme de Coppola.
- A surpresa com
Deixa Ela Entrar e a correção do equívoco de não ter trazido o fenomenal
A Floresta dos Lamentos no ano passado.
- Apesar das mancadas, o evento continua sendo apaixonante para quem gosta de cinema.