31/10/2008 14h10

MOSTRA 2008: Encerra-se mais um banquete de muitos sabores

Da Redação

Foto: Divulgação
Por Sérgio Alpendre

Chegou a hora de recolher as programações e esperar pelo próximo ano. O que foi visto pôde ser comentado, contestado e admirado. O que não foi visto vai ter de esperar uma outra oportunidade (DVD, circuito, ciclos em cinematecas, etc...). Encerra-se mais um banquete de muitos sabores, com risco de deleite total e de certa indigestão. Mas quem ama cinema geralmente participa da festa, nem que seja por um breve momento, uma corrida à mesa central para um canapé.

A 32ª edição da tradicional Mostra Internacional de Cinema em São Paulo foi estranha, para dizer o mínimo. Estamos vivendo um período de transição, quando a palavra "digital" é considerada mágica antes mesmo de ter seu significado compreendido. Por isso, acompanhamos cerca de metade das exibições no formato digital, o que quer dizer desde a já conhecida Rain, com seu padrão de qualidade que varia do risível ao aceitável, às vergonhosas cópias em DVCams, que se assemelham a fitas de VHS com o tracking desregulado.

Tudo bem que alguns filmes só seriam exibidos dessa maneira, mas nesse caso cabe a questão: é um nobre motivo? E algumas questões derivadas: o evento não era melhor quando exibia menos filmes? A produção mundial não era melhor selecionada? Um evento desse porte tem algo a ganhar com o gigantismo? Perguntas que talvez não sejam respondidas satisfatoriamente, nem pela direção da Mostra, nem pela imprensa especializada, muito menos pelos cinéfilos que se habituaram a correr de um cinema para outro.

Se é demasiado cedo para lamentar a opção escancarada pelo digital em nome da exibição a qualquer custo, da necessidade de estarmos - nós, pobres cinéfilos brasileiros - antenados com o que se produz na atualidade, também seria leviano fazer vistas grossas aos percalços que essa opção acarreta. E se o momento é de transição, cabe pensarmos se o caminho é esse mesmo ou se a corrida rumo ao digital está sendo realizada de maneira ansiosa.

Discussões complicadas à parte, dá para destacar os filmes, a razão de ser eterna da Mostra. E nesse terreno o banquete, como imaginávamos, foi bem farto. Pudemos ver desde o novo e excelente trabalho de Woody Allen (O Sonho de Cassandra), Vicky Cristina Barcelona, com um dos personagens mais fortes dos últimos anos sendo interpretado por um inspirado Javier Bardem (Onde os Fracos Não Têm Vez), até o magnífico estudo da questão social e das injustiças do capitalismo no essencial Sonata de Tóquio, de Kiyoshi Kurosawa (Vítima de uma Alucinação), que não tem parentesco algum com o mestre Akira Kurosawa (Os Sete Samurais).

No cinema de gênero, fomos brindados com o simpático Appalloosa - Uma Cidade Sem Lei, de Ed Harris (que se redimiu de ter feito o insosso Pollock), mas também com uma pérola do cinema de horror recente, Deixa Ela Entrar (como diz a legenda em português impressa na cópia), do diretor sueco Tomas Alfredson, um romance de terror como há muito não se via.

O cinema de autor vai bem, sim senhor, ainda que um tanto acomodado. Se pudermos ver diretores tarimbados no melhor de sua forma - Horas de Verão, de Olivier Assayas (Clean), A Fronteira da Alvorada, de Philippe Garrel (Amantes Constantes) e A Vida Moderna, de Raymond Depardon (La Captive du Désert) -, também testemunhamos cineastas com certo potencial errando a mão, caso de Albert Serra, com O Canto dos Pássaros, e de Lisandro Alonso, com Liverpool, e diretores com uma obra forte como Jacques Doillon (Ponette) caindo no atalho fácil do desprezo à composição de personagens, com O Primeiro a Chegar.

Tivemos obras notáveis de diretores já consagrados em festivais, como Jia Zhang-ke (Em Busca da Vida) e seu belíssimo 24 City, Naomi Kawase e o maravilhoso A Floresta dos Lamentos e Pablo Trapero (Família Rodante) com seu Leonera. Descobrimos um grande autor: Miguel Gomes, diretor do estupendo e desafiador, embora fácil de se ver, Aquele Querido Mês de Agosto. E um cineasta uruguaio a se seguir: Federico Vieroj, que nos brindou com o agradável Acne.

Mas talvez a melhor pedida nesta 32ª edição foi acompanhar um punhado de filmes que comprovam o ecletismo de um cineasta de marca autoral bem definida como Kihachi Okamoto. Quem achava que tal paradoxo (ecletismo e idiossincrasia) não era possível deve ter se impressionado com obras como A Espada da Maldição, Forte Sepultura e Tudo Sobre o Casamento. Além, claro, da confirmação inevitável de que Bergman já era grande antes de Morangos Silvestres. A Mostra exibiu o primoroso Prisão para provar toda sua inventividade já no final da década de 40. Filmes maduros e geniais como Vergonha, A Paixão de Ana e Fanny e Alexander também enriqueceram a programação.

Não podemos esquecer da sessão inesquecível de O Poderoso Chefão, primeiro de três filmes essenciais que Francis Ford Coppola (O Homem Que Fazia Chover) fez sobre a saga do filho de um mafioso, com uma interpretação monumental de Al Pacino (As Duas Faces da Lei). E da exibição completa em 35mm de outro monumento: Berlim Alexanderplatz, de Rainer Werner Fassbinder (Lili Marlene). São momentos assim que fazem com que cada edição tenha suas particularidades, e ajudam a relevar um pouco as pisadas na bola típicas deste momento de transição.

Trocando em miúdos

O pior:

- As projeções em DVCam, como o ingresso custando absurdos R$ 18 de sexta-feira a domingo.
- Os atrasos pelos mais variados motivos: desorganização, legendagem, sinal digital, etc.
- A falta de humor de muitos freqüentadores, pouco habituados aos deslizes inevitáveis de um evento como a Mostra, e a falta de educação de muitos espectadores.
- A programação mal feita, que ousou exibir uma cópia celebrada em 35mm de Berlim Alexanderplatz na tela minúscula do Cine Bombril 2, ou o elogiado Melancholia na sala 5 do Espaço Unibanco Augusta, com tela menor que a de muitos Home Theaters.
- Os preços dos ingressos e dos pacotes especiais.

O melhor:

- As retrospectivas de Kihachi Okamoto e Ingmar Bergman, bem como a exibição especial de O Poderoso Chefão.
- A forte presença de filmes brasileiros que dificilmente chegarão ao circuito comercial.
- A projeção do Cinesesc, que permitiu o brilho intenso do filme de Coppola.
- A surpresa com Deixa Ela Entrar e a correção do equívoco de não ter trazido o fenomenal A Floresta dos Lamentos no ano passado.
- Apesar das mancadas, o evento continua sendo apaixonante para quem gosta de cinema.
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