17/10/2009 16h10

Mesmo inferior, Metrópolis encanta pelos cenários opressivos e mise en scène dos personagens

Sérgio Alpendre

Foto: Divulgação
A biografia sobre Fritz Lang escrita pelo crítico espanhol Quim Casas conta que a chegada de navio em Manhattan foi uma visão inesquecível para o diretor, em meados de 1924. Ele havia ido aos Estados Unidos para supervisionar a abertura de escritórios da produtora alemã UFA, além de estudar o esquema de produção dos estúdios americanos. A visão dos arranha-ceús teria sido um estopim para a idéia de Metrópolis.

Deu no que deu: o maior prejuízo comercial da UFA, e um filme que até hoje não foi visto de acordo com o que Lang queria.

Mesmo durante as filmagens, Lang não gostava das idéias simplistas do roteiro de Thea von Harbou sobre o capitalismo e o operariado, principalmente no desfecho conciliador. Sua visão era muito mais pessimista, como podemos notar em suas diversas e fundamentais obras futuras. Por isso é comum que muitos críticos descartem Metrópolis como um elefante branco, indigno de Lang, o que é pura besteira.

O olhar do diretor está lá, representado pelos cenários opressivos, por algumas nuances nas relações entre alguns personagens, pela incrível capacidade de posicionar a câmera e aproveitar o espaço cênico da melhor maneira possível, extraindo o máximo de dramaticidade de algumas situações que poderiam ser prosaicas.

Além disso, prevalece uma estrutura por demais interessante sobre os jogos de poder e o cristianismo, como bem notou o estudioso francês Noel Simsolo, em um livro sobre o diretor.

Fase alemã x fase americana

Nove entre dez conhecedores de cinema preferem a fase americana à alemã do cineasta, e não há como discordar disso. O melhor de seus filmes mudos, Uma Mulher na Lua, equivale a um filme médio que ele fez nos EUA; já o melhor feito na Alemanha, O Testamento do Dr. Mabuse, não está entre os cinco melhores que fez, apesar de ser um grande filme.

Mas é sempre instigante rever ou ler sobre uma obra grandiosa como Metrópolis, pois um grande diretor, por vezes, é mais perceptível nas obras equivocadas, ou que apresentem aspectos que seriam melhor desenvolvidos futuramente, do que em obras mais bem acabadas, que, isoladamente, distantes de um conceito de autoria, podem não dizer tanto sobre o seu olhar, seus métodos e sua postura diante do mundo.

Metrópolis teve várias versões para o cinema, sendo a mais conhecida justamente a mais criminosa: a que foi musicada por Giorgio Moroder nos anos 80, a partir de um corte de apenas 83 minutos, contra os 153 minutos da estreia alemã e os 116 minutos da exploração comercial nos EUA.

Muita gente conhece o filme apenas por essa versão de Moroder, o que equivale a desconhecer por completo o ponto de vista de Lang. Espera-se que os negativos encontrados na Argentina agora façam jus ao pessimismo do diretor.
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