02/12/2008 16h12

Diretor de O Cheiro do Ralo aborda adolescência em novo filme

Heitor Augusto

Foto: Divulgação

Quem passou a identificar o nome do cineasta Heitor Dhalia com um cinema que privilegia personagens freaks, estranhos, como em O Cheiro do Ralo e Nina, pode ter uma grata surpresa. Seu novo filme, À Deriva, trabalha em outro registro: o primor da dramaturgia.

Uma família de classe média alta, que passa férias em Búzios, Rio de Janeiro, está se dissolvendo. O pai, intelectual, é francês e tem uma amante americana. A mãe assiste ao fim do projeto de família. Toda essa história é observada por uma menina de 14 anos, que tenta entender o que se passa com os pais e, ao mesmo tempo, lidar com os ritos de passagem da adolescência.

Entre a dureza e a suavidade. "Tentei abordar temas que são amargos, mas com suavidade no tratamento. Um conflito bonito, não áspero", contou o cineasta ao Cineclick. Dhalia repete a palavra "bonito" diversas vezes na tentativa de definir À Deriva. E explica referências à nouvelle vague, movimento do cinema francês que quebrou barreiras nas décadas de 50 e 60. "Tem um pouco do clima dos Contos Morais dos filmes de Eric Rohmer".

Uma família cuja história se encerra em si, ou "uma dramaturgia conscrita numa geografia e num espaço", nas palavras do diretor, que novamente cita a nouvelle vague. O espaço é Búzios, não apenas pela beleza natural, mas pelo valor simbólico que assumiu nos anos 70 e 80, época em que o filme de Dhalia é ambientado. "O lugar tem muito do clima de charme, remete à Brigitte Bardot, a uma elite nacional, intelectualidade".

Muito diferente dos trabalhos anteriores. Em O Cheiro do Ralo (2006), o cineasta apostou no universo psicológico e estranho de Lourenço Mutarelli para construir um personagem esquisito, interpretado por Selton Mello. Já em Nina (2004), seu primeiro longa, Dhalia aproxima-se do universo de Dostoievski em Crime e Castigo para criar um universo urbano, surreal e confuso.

À Deriva, filmado em maio nas águas de Búzios, tem co-produção internacional com a Focus Features (braço independente da Universal). Vai na contramão de seus filmes anteriores. "É engraçado, pois é o filme que eu tive mais dinheiro na produção, porém é meu filme mais pessoal". Mesmo? Não seria contraditório? "Não, pois essa história é a que mais tem a ver comigo entre as três", afirma Dhalia.

O elenco do filme é encabeçado por Vincent Cassel (Treze Homens e Um Outro Segredo), o pai; Deborah Bloch (Caramuru - A Invenção do Brasil), a mãe; Camila Belle (10.000 A.C.), a amante; Laura Neiva, a filha cujo ponto de vista é o apresentado na história. Um personagem específico que fez com que a produção quebrasse a cabeça para encontrar a atriz certa. "Estávamos quase desistindo". Aí entrou a tecnologia. "Achamos a garota num site de relacionamento". Problema resolvido. "Ela reuniu duas coisas que procurávamos: o olhar de criança e o olhar de mulher na mesma pessoa. Ela tem uma coisa meio Lolita", define Dhalia, gesticulando efusivamente e indicando que a escolha da atriz foi um "gol de placa" para o filme.

O cineasta acredita que À Deriva é seu longa mais maduro, no qual acertou na dramaturgia. Segundo ele, "possivelmente vai estrear no primeiro semestre de 2009", após passar por algum festival. Entre janeiro e julho do próximo ano, ocorrerão Cine Ceará (abril), Cine PE (ainda sem data) e, provavelmente, Paulínia, no fim do primeiro semestre.

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