Com uma programação menos palatável, digamos, em comparação à noite anterior, os filmes exibidos na segunda noite do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, nesta quinta-feira (20/11), acabaram dividindo a platéia sempre bastante animada e participativa do festival. Que, claro, manifestou-se com palmas e vaias a todas as produções exibidas.
A exibição do curta-metragem pernambucano Nº 27, de Marcelo Lordello, abriu as atividades no Cine Brasília. O diretor mostrou-se bastante tenso com a expectativa das reações exacerbadas da platéia do festival, que, no fim das contas, acabaram soando mais como algazarra do que manifestações de opiniões sinceras. O curta de Lordello quase não tem diálogos, é totalmente conduzido pelo protagonista (Caio Almeida) e o que acontece com ele durante uma prova na escola. Os acontecimentos são revelados aos poucos, descortinados por um roteiro simples, porém instigante. Talvez a falta de um clímax ou mesmo momentos emocionantes tenha causado esta reação na platéia, sempre ávida por emoção. O fato é que Nº 27 é um exercício maduro e direto da linguagem cinematográfica.
Cidade Vazia, do realizador local Cássio Pereira dos Santos, atraiu amigos da equipe ao Cine Brasília nesta quinta-feira (20/11). O filme acompanha dois adolescentes, que perambulam pela noite numa pequena cidade. O roteiro é desenvolvido sobre essa aparentemente banal situação, mas revela os fatos aos poucos, assim como a produção exibida anteriormente. Trata-se de um curta-metragem simpático, com alguns toques de humor, mas nada que marque o espectador.
Diferentemente de FilmeFobia, longa-metragem dirigido por Kiko Goifman, que encerrou as atividades na segunda noite competitiva no Festival de Brasília. Odiando ou adorando o filme, foi impossível não demonstrar reações em relação ao novo trabalho do diretor de 33. Exibido para uma platéia lotada, a produção foi apresentada pelo diretor, que subiu ao palco ao lado de sua equipe. "Estaria alucinado se tivesse fobia a multidão", falou o diretor antes da projeção.
FilmeFobia aborda a tênue e frágil linha existente entre a ficção e o documentário. Afinal, até onde vai a realidade quando se tem uma câmera filmando? De qualquer forma, trata-se de uma ficção, por mais documental a linguagem que desenvolve. "Se este filme fosse um documentário, eu e Jean-Claude (Bernardet) seríamos presos na saída", brincou Kiko Goifman, defendendo sua ficção.
Trata-se de um filme dentro de um filme. Jean-Claude Bernardet (um dos mais importantes estudiosos de cinema do Brasil) atua como Jean-Claude, o diretor de um documentário cujo objetivo é explorar os limites psicológicos de pessoas que sofrem de fobias. Se você acha que Jogos Mortais e filmes similares trazem torturas angustiantes, experimente ver um indivíduo encarando sua fobia. Por mais que o espectador não se comova negativamente com uma chuva de botões ou um jogo de pôquer com cartas de cortes sangrentos, é impossível não sentir nada ao ver na tela como uma pessoa fóbica encara sua fobia. O diretor do documentário fictício - cujo making of é o próprio FilmeFobia - busca as emoções, as reações exacerbadas de seus objetos de pesquisa e, para isso, conta com José Mojica Marins, até, o maior cineasta de terror do Brasil em participação especial - e alguns dos mais engraçados comentários do filme, que servem para dar uma amenizada nas imagens tensas que vemos na tela.
Toda a equipe de produção de FilmeFobia aparece no filme - como o roteirista Hilton Lacerda e o músico Livio Tragtenberg (que cria a trilha sonora do longa ao vivo nas cenas, no momento em que foram filmadas) -, por isso essa confusão: é um documentário ou não? Pelo fato das cenas serem construídas minuciosamente e a exploração das fobias ser proposital a fim de se conseguir reações previstas, não. No entanto, a revelação as fobias e pensamentos da própria equipe quando eles confabulam sobre o documentário que produzem dentro do filme. Mas essa definição de gêneros somente existe para que videolocadoras possam classificar os filmes em suas prateleiras. Na prática, qual documentário não tem sua ficção, e vice-versa? O próprio Jean-Claude Bernadet em debate sobre o longa nesta sexta-feira (21/11) defendeu a abolição dos gêneros. "As pessoas deveriam abolir de seus vocabulários as palavras 'ficção' e 'documentário'", acredita o ator e teórico do cinema.
Independentemente desse tipo de discussão, FilmeFobia é seguramente um filme ousado, de difícil digestão, mas corajoso em sua concepção, principalmente pelas questões que levanta em relação ao cinema em si. Abordar as fobias de seus personagens é uma forma que Goifman encontra de levantar questões pertinentes em relação aos gêneros cinematográficos, que, no final, acabam servindo somente para que as videolocadoras definam em qual prateleira colocar este ou aquele filme. Ao tratar o cinema como arte e não como produto, FilmeFobia provoca o espectador. E, de fato, esse é o principal propósito da produção.
Por mais que tenha recebido algumas vaias no Cine Brasília na noite de quinta-feira (20/11), o longa provocou os sentimentos na platéia do festival, que, por mais incomodada que ficasse, ainda permaneceu no cinema, já que, ao fim da projeção, a sala seguiu lotada, sinal de que o incomodo não foi maior do que a curiosidade dos espectadores em relação às propostas do diretor com este trabalho.
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