Somos o que somos, somos o que somos/ Inclassificáveis, inclassificáveis. Ney Matogrosso já pintou o rosto, cantou o vira, revolucionou o conceito de espetáculos musicais, encheu-se de plumas, recolheu a purpurina para cantar Cartola, rejuvenesceu com Pedro Luís e a Parede e entrou numa roupagem mais pop na nova turnê Inclassificáveis.
Não contente em romper a fronteira entre o masculino e o feminino, o artista mais uma vez mostra que não há fronteiras entre os tipos de arte e dá a cara para bater no cinema. Em Depois de Tudo, interpreta um gay enrustido que, depois de uma noite de amor, tem de voltar para casa. O curta-metragem é exibido nesta quarta-feira (19/11) no 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro dentro da Mostra Competitiva 16 mm. O curta foi exibido no Festival Mix Brasil.
Ney Matogrosso, assumidamente homossexual, interpretando um gay enrustido? "Foi interessante essa escolha do diretor para eu interpretar o personagem camuflado", afirmou o cantor à reportagem do Cineclick. No curta-metragem, ele e Nildo Parente (São Bernardo) são um casal com intimidade de longa data, mas que, por alguma razão dita nas entrelinhas, tem de se separar na manhã seguinte.
Não é sua primeira experiência no cinema. Ney estreou no longa Sonho de Valsa, de Ana Carolina, e também participou de Diário de Um Novo Mundo, de Paulo Nascimento. "O cinema é um exercício de contenção", afirma. Essa contenção foi explorada pelo diretor Rafael Saar, que enxuga a história e dá o mínimo possível de elementos para o espectador.
Nos 12 minutos de Depois de Tudo, a convivência do casal é mostrada apenas em um apartamento. O personagem de Nildo prepara o jantar e ajeita o cabelo quando houve o parceiro chegar. Ney aparece após um dia de trabalho e vai tomar banho. Os dois assistem a um filme e transam, com extrema intimidade. Porém, vem a despedida, cuja razão fica para o espectador dialogar posteriormente.
Diretor e cantor se conheceram há cerca de dois anos, quando Saar começou a preparar um documentário sobre Ney. "Um dia ele chegou em casa com o roteiro do filme e pediu para que eu lesse. Após ver o que era a história, respondi: 'isso é uma proposta, né? Você quer que eu faça o filme!". As filmagens foram realizadas em apenas um dia em um prédio no bairro de Botafogo (Rio de Janeiro).
Teatro
Na verdade, Ney Matogrosso, muito antes de explodir na liderança dos Secos e Molhados, estudou teatro. "E foi assim que eu sobrevivi quando vim para São Paulo", conta o mato-grossense. "Não foi uma opção abandonar a carreira de ator, o lado musical aconteceu. Quando a vida me chama, eu vou".
Conhecido pelo comportamento artístico transgressor e os espetáculos performáticos, Ney nega a existência de uma fronteira clara entre atuar, cantar ou iluminar, atividades que ele sempre incorporou na sua trajetória. "Não vejo uma divisão clara, desde que seja arte e se houver forma de eu me expressar de forma segura, eu faço de tudo", afirma com espontânea sinceridade.
Matogrosso também é objeto de outra produção selecionada para ser exibida no festival dentro da Mostra Competitiva 16 mm: o documentário Marcelo Bousada, quem?, de Denílson Félix. No documentário, o poeta e compositor Marcelo Bousada sai à procura de Ney Matogrosso para lhe apresentar uma de suas composições. Marcelo Bousada, quem? será exibido domingo (23/11), na Sala Martins Pena do Teatro Nacional Cláudio Santoro. A sessão de Depois de Tudo no mesmo local, ambas as exibições gratuitas e a partir das 14h30.
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