25/11/2008 23h11

BRASÍLIA 2008: FilmeFobia vence o festival

Angélica Bito

Foto: Divulgação

Numa cerimônia morna, ocorreu na noite desta terça-feira (25/11) a festa de encerramento do 41º Festival de Brasília do Cinema Brasileiro, realizada no Cine Brasília, onde os filmes em competição foram exibidos durante a última semana.

No palco, três prateleiras de troféus já mostravam a longa noite que nos aguardava em festa que reuniu imprensa, realizadores e convidados. Lance Maior, dirigido por Sylvio Back em 1968, abriu as atividades, que começaram com uma hora de atraso. O arquiteto e artista plástico Manuel Coelho acompanhou Back no palco. Coelho foi premiado no Festival de Brasília por Melhor Cartaz - categoria hoje extinta. As atrizes Regina Duarte e Irene Stefânia também vieram a Brasília a fim de apresentar a versão restaurada do longa, exibida no encerramento do evento em comemoração aos 40 anos da produção.

Depois da exibição de Lance Maior, os prêmios começaram a ser entregues. O Vagalume, conferido pelos deficientes visuais que prestigiaram às sessões ao longo da mostra competitiva graças a dispositivos de descrição audiovisual feitos para a inclusão cinematográfica dos deficientes, foi para o longa-metragem O Mistério de Sta Luzia, dirigido por Sergio Roizenblit, que frisou a preocupação de se estar trabalhando não somente com o visual, mas com o áudio também, na realização de um longa-metragem. A cineasta carioca Duda Gorter descreveu o Vagalume que ganhou como Melhor Curta como "um privilégio absoluto".

O documentarista Vladmir Carvalho, também membro do Júri Oficial, subiu ao palco do Cine Brasília para entregar o prêmio Cine Memória a André Luís da Cunha, diretor de Ñande Guarani (Nós Guarani), em troféu dado ao melhor documentário produzido no Distrito Federal. "Tudo que a gente queria era dar visibilidade à questão guarani", afirmou o diretor durante agradecimento ao prêmio. "Receber das mãos de Vladmir Carvalho é um prazer", completou.

Os Candangos atribuídos pela crítica especializada foram entregues na seqüência: o curta-metragem Cães, de Adler Paz e Moacyr Gramacho, e FilmeFobia, de Kiko Goifman, foram os escolhidos pelos jornalistas que estão cobrindo o festival desde a última terça-feira (18/11). Quando Goifman subiu ao palco, já sentiu a divisão que sua obra provocou junto ao público, recebendo tanto vaias quanto palmas, a exemplo da recepção que teve seu filme na noite de exibição. "Estou perplexo", afirmou. E a expressão em seu rosto não negava tamanha perplexidade, tanto que o discurso foi bastante breve. "Este prêmio é para Jean-Claude Bernardet, que escreveu tantas críticas corajosas", dedicou o diretor.

A equipe de jornalistas culturais do jornal local Correio Brasiliense atribui há 13 anos o Prêmio Saruê, dado este ano a um longa-metragem que nem estava na competição principal, mas na Mostra Brasília: Se Nada Mais Der Certo, do realizador brasiliense José Eduardo Belmonte. "Babado!", gritou o diretor ao subir no palco ao lado do produtor Ronaldo de Oxum. "Estou surpreso com esta lembrança", afirmou Belmonte, que já havia recebido o prêmio de Melhor Filme no Festival do Rio. Outro veículo que concedeu um prêmio no Festival de Brasília foi o Canal Brasil, que entregou seu Prêmio Aquisição ao curta-metragem Superbarroco, de Renata Pinheiro.

Ao receber o prêmio ABCV DF 2008, da Associação Brasileira de Cinema e Vídeo do Distrito Federal - entregue pela primeira vez este ano -, o ator e produtor Murilo Grossi leu uma carta em manifesto pela defesa do cinema brasiliense, principalmente vindo do governo - onde, somente no último ano, foram produzidos mais de 50 filmes -, recebendo o maciço apoio da platéia, também formada por realizadores locais. O manifesto chegou até a eclipsar a comemoração de Jimi Figueiredo, de Pequena Fábula Urbana, ganhador deste prêmio. Mas isso não importa: o fato é que a intervenção de Grossi foi de boa aceitação, além das reivindicações serem extremamente importantes, especialmente num festival como este, de forte cunho político.

Ironicamente, os prêmios entregues na seqüência foram os da Câmara Legislativa para os curtas e longas-metragens exibidos dentro da Mostra Brasília. Como era esperado, o Melhor Longa (que ainda ganhou R$ 50 mil) foi Se Nada mais Der Certo. "Estava morrendo de medo de não ganhar este prêmio", brincou Belmonte ao subir ao palco para receber o troféu ao lado novamente de Ronaldo de Oxum, que comemorou lembrando que vendeu sua casa para conseguir concluir a produção do longa. O manifesto lido por Grossi momentos antes na festa abriu caminho para que Malu Valle, Melhor Atriz pelo curta Alice, subiu ao palco para receber seu prêmio reivindicando por um espaço maior para curtas-metragens no circuito comercial, bandeira deveras pertinente num momento em que o cinema brasileiro tem se mostrado tão inventivo nesta metragem. "Os curtas deveriam ser exibidos antes dos longas", defendeu a atriz.

Clarissa Cardoso, diretora e roteirista de Ana Beatriz, recebeu o primeiro Candango conferido pelo Júri Oficial pelo roteiro de seu curta-metragem, um prêmio "inesperado", conforme definiu no palco do Cine Brasília. A diretora Duda Gorter subiu ao palco e recebeu em nome de Ana Lúcia Torre o Candango de Melhor Atriz, a quem a diretora definiu como "mais que uma amiga, mas uma atriz excepcional". O prêmio de Melhor Ator foi para Hilton Cobra, de Cães. Os diretores subiram ao palco lembrando que se trata do trabalho de estréia de Cobra, "que carregou o filme nas costas", brincaram. O Júri Oficial - formado pelo jornalista Artur Xexéo, os cineastas Carlos Reichenbach (Falsa Loura), Vladimir Carvalho (O Engenho de Zé Lins), Sérgio Machado (Cidade Baixa) e Murilo Salles (Nome Próprio), além das atrizes Maria Flor (Chega de Saudade) e Sandra Corveloni (Linha de Passe) - deu a Minami Em Close-Up o Candango de Melhor Roteiro em curta-metragem, dedicado à sua equipe pelo diretor Thiago Mendonça.

Uma das exibições mais animadas, cheia de membros da equipe e amigos, foi a de Brasília (Título Provisório), dirigido por J. Procópio. Por isso, não foi muito surpreendente quando os apresentadores anunciaram que o curta vencera na categoria de Melhor Filme de acordo com o Júri Popular. "Sou público deste festival", afirmou o diretor, bastante animado pelo prêmio, especialmente pelo fato de ter sido dado pelo público do evento.

Vânia Debs foi a primeira a ser convocada ao palco do Cine Brasília para receber os Candangos de trabalhos em longa-metragem. Responsável pela montagem de FilmeFobia, ela foi a primeira da equipe do longa a subir ao palco. No fim das contas, o filme de Kiko Goifman dividiu opiniões e foi vaiado, mas também aplaudido e abraçado não somente pela imprensa, mas também pelo Júri Oficial, conforme vemos na lista dos ganhadores desta noite: além de ter sido escolhido o Melhor Filme, mais valiosa e aguardada categoria da noite, FilmeFobia também venceu nas categorias Melhor Direção de Arte e Ator (Jean-Claude Bernardet), levando cinco Candangos para casa. Aliás, Goifman mostrou-se bastante emocionado ao receber os prêmios, principalmente quando representou Bernardet no palco, definindo-o como "um ator incrível". Além disso, dedicou o Candango à sua esposa, Claudia Priscilla, que também trabalhou na produção do longa. A artista plástica Cris Bierrenbach, diretora de arte premiada, frisou como foi difícil o processo de produção do longa. "Este filme foi feito visceralmente entre equipe, quase me levou à loucura, mas foi uma das melhores experiências da minha vida", disse. "Agradeço até as vaias", disse Goifman no palco do Cine Brasília. "As vaias são saudáveis", ponderou o diretor logo após o final da cerimônia em entrevista dada a um punhado de jornalistas que estavam ávidos por suas declarações no calor do momento.

O realizador baiano Geraldo Sarno nem chegou a comparecer à cerimônia, permanecendo no hotel alegando indisposição. Sua equipe recebeu os Candangos em seu nome.

Confira os vencedores:

PRÊMIOS OFICIAIS - TROFÉU CANDANGO

Longa-metragem em 35mm

Melhor Filme (Júri Oficial) (R$ 80 mil): FilmeFobia, de Kiko Goifman
Prêmio especial do Júri: À Margem Do Lixo, de Evaldo Mocarzel
Prêmio Júri Popular (R$ 30 mil): À Margem Do Lixo, de Evaldo Mocarzel
Prêmio Aquisição TV Brasil (R$ 30 mil e o título premiado integrará a programação da emissora): À Margem Do Lixo, de Evaldo Mocarzel
Melhor Direção (R$ 20 mil): Geraldo Sarno por Tudo isso parece um sonho
Melhor Ator (R$ 10 mil): Jean-Claude Bernardet (FilmeFobia)
Melhor Atriz e Melhor Atriz Coadjuvante (R$ 10 mil e R$ 5 mil): elenco feminino de Siri-Ará
Melhor Ator Coadjuvante (R$ 5 mil): Everaldo Pontes (Siri-Ará)
Melhor Roteiro (R$ 10 mil): Geraldo Sarno e Werner Salles (Tudo Isso Parece Um Sonho)
Melhor Fotografia (R$ 10 mil): Gustavo Hadba e André Lavenère (À Margem do Lixo)
Melhor Direção de Arte (R$ 10 mil): Cris Bierrenbach (FilmeFobia)
Melhor Trilha Sonora (R$ 10 mil): O Milagre De Sta Luzia
Melhor Som (R$ 10 mil): Fernando Calvalcante (Ñande Guarani (Nós Guarani))
Melhor Montagem (R$ 10 mil): Vânia Debs (FilmeFobia)

Curta ou média-metragem em 35mm

Melhor Filme (Júri Oficial) (R$ 20 mil): Superbarroco, de Renata Pinheiro
Melhor Filme (Júri Popular) (R$ 20 mil): Brasília (Título Provisório), de J. Procópio
Melhor Direção (R$ 10 mil): Thiago Mendonça (Minami em close-up)
Melhor Ator (R$ 5 mil): Hilton Cobra (Cães)
Melhor Atriz (R$ 5 mil): Ana Lúcia Torre (Na Madrugada)
Melhor Roteiro (R$ 5 mil): Clarissa Cardoso (Ana Beatriz)
Melhor Fotografia (R$ 5 mil): PEDRO SEMANOVISCHI por Cães
Melhor Montagem (R$ 5 mil): Ivan Morales Jr. (Arquitetura do Corpo)

Curta-metragem em 16mm

Melhor Filme (Júri Oficial) (R$ 15 mil): Cidade Do Tesouro, de Célio Franceschet.
Prêmio Especial do Júri: Depois Das Nove, de Allan Ribeiro.
Melhor Direção (R$ 10 mil): Ângelo Defanti (Maridos, Amantes e Pisantes)
Melhor Ator (R$ 5 mil): Nildo Parente (Depois de Tudo)
Melhor Atriz (R$ 5 mil): Malu Valle (Alice)
Melhor Roteiro (R$ 5 mil): Cassio Pereira Dos Santos (A Menina Espantalho)
Melhor Fotografia (R$ 5 mil): Alexandre Taira (Cidade do Tesouro)
Melhor Montagem (R$ 5 mil): Alexandre Boechat (Landau 66)
Menção Honrosa: A Menina Espantalho, de Cassio Pereira dos Santos.

PRÊMIO CÂMARA LEGISLATIVA DO DISTRITO FEDERAL
Melhor longa-metragem em 35mm (R$ 50 mil): Se Nada Mais Der Certo, de José Eduardo Belmonte.
Melhor média ou curta-metragem em 35mm (R$ 10 mil): A Saga Das Candangas Invisíveis, de Denise Caputo.
Melhor filme em 16mm (R$ 5 mil): A Menina Espantalho, de Cássio Pereira dos Santos.

PRÊMIO ABCV DF 2008: Pequena Fábula Urbana, de Jimi Figueiredo

AQUISIÇÃO CANAL BRASIL: Superbarroco, de Renata Pinheiro

Marco Antônio Guimarães - Troféu Candango (Conferido pelo Centro de Pesquisadores do Cinema Brasileiro para o filme que melhor utilizar material de pesquisa cinematográfica brasileira. Pela extensa pesquisa, perfeita utilização das imagens e reconstituição de um momento importante da historia brasileira): Memórias Finais Da República De Fardas, de Gabriel F. Marinho.

PRÊMIO SARUÊ (Conferido pela equipe de cultura do jornal Correio Braziliense): José Eduardo Belmonte (Se Nada Mais Der Certo)

PRÊMIO DA CRÍTICA - TROFÉU CANDANGO

Melhor longa 35mm: Filmefobia, de Kiko Goifman
Melhor curta em 35mm: Cães, de Adler Paz e Moacyr Gramacho

CONTERRÂNEOS (Troféu oferecido pela Fundação CineMemória ao Melhor Documentário do Festival): Ñande Guarani (Nós Guarani), de André Luís da Cunha.

PRÊMIO VAGALUME (conferido por integrantes do projeto Cinema para Cegos)

Melhor Longa 35mm: O Milagre De Sta Luzia, de Sergio Roizenblit
Melhor Curta 35mm: Na Madrugada, de Duda Gorter

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