
Do cinema mudo até os dias atuais, um balanço da história
dos negros brasileiros e sua presença em nossa cinematografia
Por
Roberto Guerra
| O
cinema brasileiro conta com um elenco soberbo de atores. Desde
os primórdios de nossa cinematografia até os
dias de hoje, astros e estrelas deixaram seus nomes gravados
na "calçada da fama" do cinema nacional.
Entre eles, diversos atores negros. Nomes como Grande Otelo,
Ruth de Souza, Milton Gonçalves, Zezé Motta,
Eliezer Gomes e Léa Garcia estão, incontestavelmente,
no rol dos mais talentosos do nosso cinema.
Atores,
claro, são profissionais da arte dramática independente
da cor de sua pele. Um bom ator é um bom ator e pronto,
nada importando se é branco, mestiço ou negro,
certo? Bem, esta parece ser uma conclusão óbvia
e, na verdade, é. O problema reside em outra esfera,
muito mais complexa do que a simples avaliação
dos dotes artísticos de alguém. |
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Grande
Otelo ao lado de Dyrcinha Batista no filme
Futebol em Família (1938) |
Basta analisarmos
a história de nosso cinema ao longo dos anos, para que surjam
questionamentos sobre a representação do negro nessa
forma de arte. Será que nossos artistas negros usufruíram
das mesmas condições de trabalho que seus colegas
de profissão brancos? Quantos atores negros chegaram a interpretar
protagonistas em filmes? Será que eles representaram nas
telas a realidade do negro brasileiro ou apenas estereótipos?
Como se vê, as coisas não são tão simples
como parecem.

Milton Gonçalves em A Rainha Diaba (1974), filme
que o elevou ao estrelato |
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Uma
das queixas mais comuns feitas pelos artistas e intelectuais
negros é de que não são representados
nas telas como personagens individualizados e sim por meio
de arquétipos, estereótipos. Tal conclusão
tem embasamento, apesar de também ser verdade que o
cinema, em geral, sempre preferiu trabalhar com arquétipos,
de negros ou não.
No livro
O Negro Brasileiro e o Cinema, do jornalista e pesquisador
João Carlos Rodrigues, única obra publicada
na língua portuguesa sobre o tema, o autor enumera
12 desses arquétipos. Os mais importantes são
o Preto Velho, o Mártir, o Nobre Selvagem, o Negro
Revoltado, o Negro de Alma Branca, o Crioulo Doido, a Musa
Negra, o Negão e a Mulata Boa. Segundo o autor, todos
os personagens negros retratados pelo cinema brasileiro se
enquadram em uma dessas categorias, muitas vezes, em mais
de uma.
Tais arquétipos têm estreita ligação
com os orixás do candomblé e da umbanda, que
foram incorporados ao folclore brasileiro e passaram a permear
o imaginário popular. O pesquisador francês Pierre
Fatumbi Verger, autor do livro Orixás (1981),
diz que as qualidades e os defeitos das divindades afro-brasileiras
revelam mais de dez personalidades padronizadas. Esses arquétipos,
quase sempre, terminam influenciando a arte e os artistas. |
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