13/10/2009 18h10
DISTRITO 9
Nota Cineclick
Angélica Bito
Quando o sul-africano Neill Blomkamp se desligou do projeto de dirigir a adaptação cinematográfica do videogame Halo - que ainda existe, previsto para 2012 -, o cineasta e produtor Peter Jackson [a mente por trás de O Senhor dos Anéis] ofereceu US$ 30 milhões para Blomkamp fazer o que quisesse. O que seria o sonho de qualquer cineasta início de carreira [este é o primeiro longa de Blomkamp] nada mais era do que sexto sentido cinematográfico do experiente Jackson. O resultado é Distrito 9, um dos mais novos fenômenos de bilheteria dos EUA, onde faturou US$ 114 milhões. Isso porque dificilmente um filme com indicação R [indicado para maiores de 17 anos] atinge um grande faturamento nos cinemas, como é o caso.

Surpreendentemente parada sobre Johannesburgo – e não em Washington ou Nova York, como outras ficções científicas -, uma gigantesca nave espacial despeja milhares de seres extraterrestres na maior cidade da África do Sul e permanece vinte anos pairando sobre o Distrito 9, como ficou conhecida a área onde os aliens permanecem isolados, em meio a impossibilidade de voltar para casa. Os humanos passam duas décadas sem saber o que fazer com os novos habitantes da cidade que, com o tempo, constroem barracos – como as favelas que tão bem conhecemos – e partem para a marginalidade, roubando tênis e celulares dos humanos – verdadeiros trombadinhas num apartheid intergaláctico. Até que a Agência MultiNacional Unida, criada para “cuidar” desses alienígenas, tem a “brilhante” ideia de realocá-los, construindo tendas a mais de 100 quilômetros de Johannesburgo para isolar mais ainda os visitantes intergalácticos. A situação, que já se encontrava à beira do caos, torna-se incontrolável quando o improvável líder do processo de locomoção, o atrapalhado Wikus Van De Merwe (Sharlto Copley), sofre um acidente.

A premissa de Distrito 9 é baseada no curta-metragem Alive in Joburg (2005), escrito e dirigido por Blomkamp. Foi nesse trabalho que o diretor trabalhou pela primeira vez com Copley, que nem tinha intenções de seguir como ator, mas agradou tanto como o protagonista desta ficção científica que ele será o capitão Murdock da adaptação cinematográfica de Esquadrão Classe A. E nenhum lugar melhor do que a cidade sul-africana – que, até 1994, separava e isolava os negros nos Soweto, bairro de periferia que abriga as favelas da cidade – para ambientar este longa, que ultrapassa as barreiras do gênero “filme de extraterrestres”.

O começo de Distrito 9 é conduzido de maneira documental, com depoimentos e todos os elementos do gênero. O espectador demora a saber o que está acontecendo. E é assim, aos poucos, que Blomkamp conquista a atenção de seu público, criando um clima de tensão que chega a ser palpável. Os alienígenas, apelidados de “camarões”, têm uma aparência que lembra um inseto. Não à toa, em dado momento o filme dialoga com A Mosca, clássico do terror dirigido por David Cronenberg em 1986. São assustadores e completamente convincentes, especialmente pela forma documental como são mostrados. Distrito 9 é tão feliz ao misturar elementos reais aos ficcionais que a tensão é inevitável. As criaturas são convincentes pelo excelente trabalho em CGI do longa, não somente na criação visual dos extraterrestres, mas na forma como eles são inseridos na realidade de Johanesburgo, interagindo com seres humanos.

O filme extrapola seu gênero por construir a tensão social espelhada no real clima de intolerância que tomou conta de Johannesburgo durante o apartheid. O clima, aliás, é provocado não somente pela segregação racial, mas principalmente pela desigualdade social. Mesmo sendo seres de outro planeta, os alienígenas acabam sendo corrompidos pela precária sobrevivência que conseguem levar no Distrito 9, não somente isolados, mas também reprimidos por uma violenta gangue de imigrantes nigerianos que dominam o local, não bastando o fato de estarem impossibilitados de voltar para casa. Assim, não é o fim do apartheid - ou a presença dele em dado momento histórico – que define o tipo de ambiente criado pela presença dos alienígenas na cidade. É, portanto, uma ficção com fortes raízes na realidade, o que o torna único em seu gênero.

Combinando uma boa dose de ironia, drama, excelentes efeitos especiais e um protagonista forte, Distrito 9 faz o quase impossível: tornar acreditável uma ficção científica.
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ÚLTIMOS COMENTÁRIOS
Juliano - 21/11/2009 01:00
A postura do grande invento saiu da cabeça de pessoas que pensam vivem e revivem tempos em tempos qualquer tipo de situação. Desde as guerras medievais até as mais recentes. A polêmica relatada na película retoma forma na pele do Africano sofrido e espelha os aliens. Os mesmos se espelham em nós um povo que mantem a guerra e a diferença social, cultural, racial. A meu ver tudo é válido quando se escreve Ficção na linhagem do material exposto. Vale lembrar que qualquer pessoa pode pensar o que quer e que uma pessoa não consegue agradar a todos. Comparo este filme aos Transformers com seus Autobots que tomam falas humanas sentimentos humanos numa outra ficção que lembra minha infância. Boa deixa dos diretores destes filmes que sabem fazer um filme sequencial e que impressionam. Afinal a nave pairada por vinte anos... pensem: é de arrepiar.
baal - 19/11/2009 10:10
Vamos pensar na questão "alienígena" de outro ponto de vista. A "capacidade" de um povo depende muito mais da "sociedade" na qual estão inseridos. Um japonês, um italiano, um africano, até mesmo um brasileiro, irão comportar-se de acordo com o meio em que estiverem. Um paralelo com Blindless, talvez. Há um filme chamado "Trocando as bolas" que mostra isso. Um mendigo malandro e um almofadinha são "trocados" manipulados por dois sócios, no caso, a "sociedade". O que se vê depois é utópico: os manipulados virando o jogo e tomando o "controle". Pensem um pouco sobre "animais": alunos que na própria faculdade (de classe média!) em que estudam vaiam uma garota só porque ela segue a tendência geral que é oferecer o máximo do corpo à exposição pública em troca de um pouco de atenção, quem sabe um elogio. Alunos machos, aluna fêmea, animais ou alienígenas? Poderia continuar citando ovos, índios queimados, crianças voando de janelas, mas acho que tá bom, né?
Daniel - 10/11/2009 09:01
É realmente depende muito de quem assiste o filme. Tendemos a pensar somente no quanto é cruel oprimir um povo. Pouco sobre o que aquele povo fez a respeito da opressão. E claro isso depende do nivel de educação deste povo. Um bando de operários do Japão ainda é mais educado que operários da Africa. E isto é um fato.
Giba Cardoso - 09/11/2009 15:20
A julgar pelos comentários abaixo, o filme provoca tanto admiração quanto ira. O que já é um feito, pois cria polêmica e nos faz refletir. O formato inicial em documentário confere ao filme alguma originalidade, difícil de ser aceita para quem
está acostumado com o formato certinho do "cinemão". Querer finais felizes até mesmo em filme de ficção é ser um pouco romântico demais. Quanto às questões "cultura/ignorância/japoneses etc..." e as "falhas" no roteiro, o enredo deixa a entender que a população de ets camarões pertence à classe de operários (há um diálogo a esse respeito) o que justificaria a estagnação da "classe" durante 20 anos. Em uma das falas comenta-se que os "líderes" foram dizimados; só sobraram os operários. Enfim, a verossimilhança depende muito do nível de quem assiste ao filme...
Pra concluir, indico a película. Há muito de nossa realidade social nos barracos de Distrito 9.