Cantoras do Rádio, de Gil Baroni e Marcos Avellar, é um tributo a quatro intérpretes cujas carreiras alcançaram o ponto máximo na Era de Ouro do Rádio, período entre as décadas de 30 a 50. Com toques didáticos, o documentário procura trazer a dimensão daquele período da história brasileira.
O rádio popularizou-se nos anos 30, quando o então presidente (que se tornaria ditador em 1937) Getúlio Vargas utilizou o veículo como uma ferramenta educativa e, paralelamente, como difusor das idéias do governo (nacionalismo e ordem, concentrados no programa
A Hora do Brasil). Nesse contexto, o rádio, por meio de programas de auditório como o de César Alencar, tornou-se o principal palco para os artistas, já que a indústria do disco iniciava sua solidificação.
O documentário dá voz a quatro cantoras daquele período: a espevitada Violeta Cavalcante, a charmosa Ellen de Lima, a
Rainha do Baião Carmélia Alves e faladora Carminha Mascarenhas. O quarteto, na verdade, serve como trampolim para apresentar um momento do País, marcado por outras artistas até de maior repercussão, como Elizete Cardoso (
Canção de Amor), Marlene (
Lata D'água), Emilinha Borba (
Chiquita Bacana), Dalva de Oliveira (
O que será) e Isaurinha Garcia (
Mensagem).
O que encanta em
Cantoras do Rádio é o vigor do quarteto, a qualidade artística e a performance no palco. Cientes do potencial de criar empatia com o público, os diretores abrem o microfone para elas, filmando uma apresentação feita há três anos, no carioca
Teatro Rival, no show
Estão Voltando as Flores. E as musas têm de apenas fazer o que sabem: cantar.
Se por um lado as canções levam às lágrimas, as entrevistas por vezes são enfadonhas. Principalmente por causa de uma tecla que as cantoras, pesquisadores e até mesmo Chico Anysio resolvem bater incessantemente: "o Brasil é um país sem memória". Recorrendo a esse clichê (cujo fundo de verdade é apenas parcial), o documentário passa superficialmente sobre as mudanças que o País atravessou nos últimos 50 anos e reitera as lamúrias de que "antigamente, as coisas eram melhores".
Baroni e Avellar derrapam também no encerramento do filme. Como que encantados com a beleza do período e a potência de Carmélia, Violeta, Carminha e Ellen, os diretores levantam a bola para terminar o filme, mas se negam a cortá-la, tornando os últimos minutos um tanto maçante.
Os deslizes, porém, não tiram a força histórica de
Cantoras do Rádio e sua capacidade de dialogar com dois tipos de público: os jovens que querem entender, por meio da música, um pouco mais sobre o Brasil; e para os mais velhos, relembrar um tempo que passou e enxergar seus valores na telona. Tanto que o filme foi aclamado na sua primeira exibição, no Festival do Rio de 2008.