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Diretora
do sucesso A Hora da Estrela se prepara para lançar seu
segundo longa 15 anos depois
Por
Roberto Guerra
Ela
tem 70 anos, a vitalidade de uma adolescente e apenas um longa-metragem
no currículo. Mas no alto dos seus 1,48m, esta dama do cinema
nacional pode se considerar parte da história da cinematografia
brasileira. Em 1985, Suzana Amaral lançou A Hora da Estrela,
seu primeiro longa adaptado da obra de Clarice Lispector. O sucesso
foi arrebatador: 23 prêmios nacionais e internacionais e a exibição
em mais de 25 países. Agora, 15 anos depois, Suzana se prepara
para lançar sua segunda empreitada: Uma Vida em Segredo,
adaptação do livro homônimo de Autran Dourado. O
filme, em fase de pós-produção, narra as desventuras
de Biela, uma jovem do interior que se muda para a casa do primo após
a morte do pai e sofre para se adaptar a nova vida na cidade. As filmagens
foram realizadas em agosto e setembro do ano passado na pequena cidade
de Pirenópolis, a 170 quilômetros de Brasília.
Nestes 15 anos que separam as duas produções, Suzana Amaral
dirigiu comerciais, uma minissérie em Portugal e foi diretora
contratada do malogrado O Caso Morel, que por uma gama de problemas
acabou não saindo do papel. Nesta entrevista, Suzana fala de
seu novo filme, das dificuldades que encontrou pelo caminho e de seus
projetos futuros.
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Do
lançamento de A Hora da Estrela até agora são
15 anos sem fazer um longa-metragem. De lá para cá você
chegou a se envolver com o projeto O Caso Morel, baseado num livro de
Rubens Fonseca, que acabou não dando certo. O que aconteceu? |
A
Hora da Estrela |
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Essa
foi uma experiência desagradável que eu não gosto
nem de comentar. O filme não foi pra frente porque na hora agá
o dinheiro desapareceu. Eu me empolguei bastante com a produção,
fiquei dois meses me preparando para o início das filmagens.
O elenco era maravilhoso, tinha a Fernanda Montenegro, Pedro Cardoso,
Antonio Calloni... Quando estava tudo aparentemente pronto, os cheques
começaram a voltar porque não tinha dinheiro. O dinheiro
desapareceu.
Depois do sucesso internacional de A Hora da Estrela você
recebeu alguma proposta para dirigir filmes no exterior?
Recebi várias propostas: uma na Alemanha, outra na Holanda,
nos EUA e em Portugal. A maioria eu não fiz porque não
me acertava com o produtor. Eu faço o que gosto e ninguém
me impõe nada. Fui convidada para fazer um filme em El Salvador
sobre a guerrilha, mas demorou muito até chegarmos num acordo
e quando resolveram começar as filmagens nem existia mais guerrilha.
Aí os investidores perderam o interesse. Fazer cinema é
um ato muito penoso. Para fazer cinema tem de ter paixão. Não
dá para fazer uma coisa que você não gosta. É
a mesma coisa que casar sem amar.
Como você entrou em contato com a obra de Autran Dourado e
por que decidiu transpô-la para as telas?
Eu não conhecia a obra de Autran Dourado. Alguém me
disse que o livro era bom e então eu resolvi ler. Agora, perguntar
por que eu decidi filma-lo é o mesmo que perguntar por que você
namora alguém. Uma série de confluências me levaram
a querer filmar a história. Mas o essencial é que me apaixonei
pelo texto. Daí então dei entrada com o projeto no Minc
e comecei a escrever o roteiro. Depois veio toda essa complicação
de captação de recursos. É sempre muito difícil
conseguir dinheiro. Primeiro porque tem muita gente que corta caminho.
Tem que ter influência.
Então a influência conta mesmo na hora de captar recursos?
Claro que conta! Não interessa se o projeto é bom
ou não. O que importa é a sua influência para conseguir
que as coisas se encaminhem . E pra dizer a verdade eu não sou
muito batalhadora com esse negócio de dinheiro. Eu vou deixando
as coisas acontecerem, se tiver que dar certo vai dar, com o tempo.
Sou uma pessoa bem zen.
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Uma
Vida em Segredo
Suzana
e o diretor de fotografia Lauro Escorel |
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Biela,
a personagem central de Uma Vida em Segredo é introspectiva,
tem dificuldade de se adaptar ao sistema. A comparação
com a Macabéa de A Hora da Estrela é inevitável.
Por que essa opção por personagens marginalizados?
Acho que as duas têm um mesmo perfil psicológico. Elas
sofrem o eterno problema do imigrante: dificuldade de adaptação,
comunicação. Só que a Macabéa ainda tentava
se adaptar e não conseguia. Já a Biela faz a escolha de
não tentar se adaptar e se fecha no mundo dela. Acho que não
faço opção por personagens marginalizados. Filmei
Uma Vida em Segredo porque gostei da história. Se acabo me interessando
por esses tipos é inconscientemente.
No filme, Biela faz amizade com um cachorro que passa a acompanhá-la.
Deu muito trabalho fazer as cenas com o cão?
E como deu! Antes das filmagens eu já estava apreensiva com os
problemas que eu poderia ter. Estudei cinema no Brasil e no exterior;
aprendi de tudo, mas nunca ninguém me ensinou a dirigir cachorro.
Deu mais trabalho do que eu esperava, mas acho que na hora da montagem
o resultado vai ser satisfatório. Depois de filmar Uma Vida
em Segredo tomei duas decisões: Cachorro e filme de época
nunca mais! (risos)
Filmes de época?
Fazer filme de época dá muito trabalho, tem muitas
complicações. Limita muito. A história de Uma
Vida em Segredo se passa no início do século. Aí
você vai filmar num determinado lugar e não pode porque
tem um poste que não existia na época. Aí tem que
adaptar. Vai filmar em outro local e não pode porque tem de mudar
isso e aquilo para se adaptar a época. Pretendo nunca mais fazer
um filme de época. Bem, mais dizer nunca mais é complicado.
Posso acabar pagando minha língua.
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Você costuma filmar rápido, com agilidade. Já vai
para o set com o filme todo na cabeça, os planos, as tomadas
etc. Agora, por que a trilha sonora, que alguns cineastas consideram
fundamental, você costuma deixar por último?
Gosto de filme silencioso. Se você pegar os melhores filmes
alemães, as produções européias de qualidade
da atualidade vai ver que esse negócio de trilha retumbante não
se usa mais. Eu sou da opinião que primeiro vem a imagem, a emoção.
A música só serve para dar uma valorizada, muito pouca
por sinal. Quem assistiu A Hora da Estrela pode notar que não
tem muita música, não adianta, não é meu
estilo. Pois eu ainda achei que havia música demais no filme.
Trilha sonora retumbante é coisa para blockbuster americano.
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Sabrina
Greve
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Como
se deu a escolha da atriz Sabrina Greve? Você pensou em escolher
alguma atriz conhecida antes dela?
Antes de escolher a Sabrina cheguei a entrar em contato com outras
atrizes mais conhecidas. Mas a maioria dela não podia porque
tinha outros compromissos. Acabei então optando pela Sabrina.
No fundo gosto mais de pessoas novas para os meus filmes. Atores veteranos
já vem com uma carga pronta e têm muitos vícios.
Gosto de dirigir os atores.
Seu próximo filme, o road movie Hotel Atlântico,
vai ser rodado digitalmente. A opção por esse processo
de captação tem haver com a economia?
Não vou filmar com câmera digital pensando em fazer
economia. É uma questão estética mesmo. Você
filma de acordo com o tratamento visual que pede o filme. A forma segue
o fundo e o fundo segue a forma. Não daria para filmar Uma Vida
em Segredo com câmera digital, ficaria ruim. Acho que o processo
digital pode cair bem em Hotel Atlântico, por isso vou fazer a
experiência. Não se pode impor a forma a qualquer conteúdo.
Esse, eu acho, é o perigo do formato digital.
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| Quando
você pretende começar a rodar esta nova produção?
O quanto antes. Dessa vez, mesmo que Uma Vida em Segredo
seja uma sucesso como foi A Hora da Estrela, não vou
demorar a começar Hotel Atlântico. Depois de A Hora
da Estrela cheguei a conclusão que o sucesso é muito
dispersivo. Na época, comecei a receber muitos convites para
diversos festivais. Ia de lá para cá sem parar. Para
você ter uma idéia, quatro anos depois do lançamento
do filme no Brasil eu estava indo para Taiwan para lança-lo
lá.
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